{"id":1037,"date":"2021-12-09T17:14:50","date_gmt":"2021-12-09T20:14:50","guid":{"rendered":"https:\/\/escrevedeira.doois.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/"},"modified":"2024-10-03T15:41:36","modified_gmt":"2024-10-03T18:41:36","slug":"viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/","title":{"rendered":"VIAGEM AO REDOR DO TEXTO &#8211; UMA ANTOLOGIA"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>APRESENTA&Ccedil;&Atilde;O <\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>por Leda Cartum<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal !msorm;\"><em>&lsquo;<\/em><\/span><em>Viagem ao redor do texto<span style=\"font-style: normal !msorm;\">&rsquo;<\/span> foi uma oficina de escrita que durou de agosto <span style=\"font-style: normal !msorm;\">a<\/span> novembro de 2021. A ideia foi mesmo convidar o grupo a fazer uma viagem: de fora para dentro, e de dentro para fora. Da observa&ccedil;&atilde;o &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o, e vice-versa. Para isso, a cada encontro, foi proposto um exerc&iacute;cio, sempre a partir de textos liter&aacute;rios que serviram como pontos de partida para a escrita. Nessas semanas, muita coisa incr&iacute;vel surgiu: eu, como guia dessa viagem longa, fui surpreendida todas as ter&ccedil;as-feiras pelas solu&ccedil;&otilde;es e descobertas dos textos de cada um. Eu sentia que lia um livro novo e secreto a cada semana.<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>Um dos exerc&iacute;cios propostos, que decidimos entre o grupo compartilhar aqui no blog da Escrevedeira, foi a partir do livro <\/em>Meninas<em>, da russa Liudmila Ul&iacute;tskaia, rec&eacute;m-publicado pela editora 34. Em certa passagem, a menina Gayan&eacute;, amedrontada pela sua irm&atilde; g&ecirc;mea, vai se esconder dos ciganos em um al&ccedil;ap&atilde;o: e o medo que cresce dentro dela faz com que o mundo se desmanche numa imensid&atilde;o assustadora, sem palavras, sem formas. A partir dessa situa&ccedil;&atilde;o, o exerc&iacute;cio proposto foi escrever a partir da inf&acirc;ncia; a partir das sensa&ccedil;&otilde;es, dos medos, do olhar arregalado e perplexo das crian&ccedil;as.<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>No livro de Ul&iacute;tskaia, a personagem Gayan&eacute; constr&oacute;i <\/em>sekri&eacute;tiki <em>&ndash; <span style=\"font-style: normal !msorm;\">&lsquo;<\/span>segredinhos<span style=\"font-style: normal !msorm;\">&rsquo;<\/span>, uma brincadeira russa comum, que consiste em fazer um buraco no ch&atilde;o e enterrar ali as coisas bonitas que querem ser guardadas. Um dia, depois de muito tempo, esse memorial pode ser encontrado de novo, como um recado que deixamos para n&oacute;s mesmos. A proposta do exerc&iacute;cio era procurar por esses pequenos segredos que deixamos guardados para n&oacute;s mesmos na inf&acirc;ncia, e que &agrave;s vezes voltam na vida adulta, e se revelam &ndash; e revelam algo de n&oacute;s tamb&eacute;m. Os encontros da oficina foram para mim, enquanto professora, tamb&eacute;m como esses segredinhos: descobrimos muitas coisas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sem t&iacute;tulo<\/strong><\/p>\n<p>Charles Bosworth<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Est&aacute;vamos brincando juntos com os bonecos dela. Sentados no ch&atilde;o, ao lado da cama, ela me contava dos lugares onde tinha conseguido cada um dos brinquedos. Um deles tinha sido trazido pela sua m&atilde;e de outro pa&iacute;s e podia ser desmontado e remontado como um quebra-cabe&ccedil;a. Eu dobrava a cabe&ccedil;a do boneco sobre o pr&oacute;prio peito e fazia seu tronco subir, guardava os bra&ccedil;os e pernas bem dobradinhos e o homem se transformava em um animal. Depois desdobrava todas as suas partes e ele voltava a ser um humano, com os bra&ccedil;os estendidos acima da cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>Ela disse:<\/p>\n<p>&ndash; Ouvi dizer que uma garota ganhou uma boneca de anivers&aacute;rio e essa boneca ganhou vida durante a noite e matou a menina.<\/p>\n<p>Eu fiquei com medo, at&eacute; que lembrei dos meus bonecos: eram todos meus amigos e jamais me atacariam durante a noite.<\/p>\n<p>Ela tentou me assustar novamente:<\/p>\n<p>&ndash; Existe uma f&aacute;brica onde eles fazem bonecos que viram facas.<\/p>\n<p>Olhei para o que estava nas minhas m&atilde;os. Ser&aacute; que havia um jeito de girar sua cabe&ccedil;a pra fazer ele virar uma faca? Puxei suas pe&ccedil;as como se tentasse resolver um desafio. Ele podia se transformar em muitas coisas, mas simplesmente n&atilde;o havia um lado afiado para fazer uma faca.<\/p>\n<p>Ela fechou a cara e foi se sentar do outro lado da cama. Est&aacute;vamos em sil&ecirc;ncio, eu montando e desmontando o boneco e ela criando novas hist&oacute;rias. Resolvi me antecipar e sa&iacute; do quarto sem dizer nada.<\/p>\n<p>Andei pelo corredor atapetado, sentindo o tecido macio com meus p&eacute;s. Acho que era de tarde, porque uma das paredes era toda coberta de janelas e entrava muita luz por ali. Brinquei de contar as portas para adivinhar quantos quartos tinham, mas logo me cansei. Tinha chegado no topo da escada e olhei para baixo. E foi ent&atilde;o que vi o leopardo. Ele caminhava devagar no andar de baixo. Com as pernas finas dava longos passos l&acirc;nguidos por entre os sof&aacute;s e os tapetes. Quase escondida debaixo da escada vi tamb&eacute;m uma cama quadrada, daquelas que se deixam para cachorros, mas muito maior em tamanho, certamente posta para ele. O animal em si era imenso, longo como uma serpente, e de cor amarronzada. O felino parou ao lado de uma tigela de pl&aacute;stico e come&ccedil;ou a beber &aacute;gua com sua l&iacute;ngua rosa. Notei que ele n&atilde;o tinha me visto. Por sorte, ainda podia voltar para o corredor antes que ele soubesse que eu estava ali. Retornei pelo caminho que viera e andei apressado na dire&ccedil;&atilde;o do quarto, da minha amiga, dos bonecos, mas a imagem do leopardo j&aacute; estava impressa na minha cabe&ccedil;a. Vi, naquele momento, na minha imagina&ccedil;&atilde;o, o leopardo erguendo seu rosto da tigela, ouvindo meus passos abafados pelo tapete e partindo como um raio escada acima. Olhei para tr&aacute;s. Imaginei repetidas vezes seu rosto aparecendo por tr&aacute;s da curva do corredor. A cada passo olhava para tr&aacute;s e pensava que naquele instante a minha imagina&ccedil;&atilde;o se concretizaria e que sua cara verdadeira, brilhando de curiosidade e mal&iacute;cia, apareceria no topo da escada.<\/p>\n<p>Entrei no quarto e fechei a porta. Ela ainda brincava com os mesmos bonecos, atr&aacute;s da cama. Precisei escolher as palavras com muito cuidado. N&atilde;o achei que fosse poss&iacute;vel que ela n&atilde;o soubesse do leopardo morando em sua casa. Tinha medo de perguntar e sofrer alguma humilha&ccedil;&atilde;o. E se este fosse um animal de estima&ccedil;&atilde;o t&atilde;o comum para ela, t&atilde;o dom&eacute;stico e t&atilde;o af&aacute;vel: ela ia debochar de mim por ter tido medo. Tudo o que consegui dizer foi:<\/p>\n<p>&ndash; Acho que tem um leopardo na sua casa.<\/p>\n<p>Seu sorriso foi &aacute;cido, cheio de prazer e confus&atilde;o.<\/p>\n<p>&ndash; &Eacute; o meu gato.<\/p>\n<p>Eu expliquei a minha vis&atilde;o. Ela, por sua vez, me disse que seu gato era muito grande, me mostrando com os bra&ccedil;os abertos assim o seu tamanho. Eu olhava para o vazio imenso entre os seus bra&ccedil;os, e sabia que ela exagerava na medida, mas n&atilde;o era poss&iacute;vel que o leopardo coubesse ali dentro. O animal que eu tinha visto tinha sido muito maior. Ela voltou a me mostrar os bonecos e eu logo me distra&iacute;.<\/p>\n<p>Voltei muitas outras vezes na casa, mas nunca mais vi o leopardo.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pren&uacute;ncio reptiliano<\/strong><\/p>\n<p>Beatriz Maia<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desde que eu me senti respons&aacute;vel por alguma coisa na minha vida, passei a ter muito medo de receber uma liga&ccedil;&atilde;o com a not&iacute;cia de que algu&eacute;m morreu. Talvez tenha sido quando a minha m&atilde;e esperou que eu viajasse para me ligar e anunciar: vou dar o Tchutchuco, tudo bem? Concordei, porque sabia que n&atilde;o era, de fato, uma pergunta. Tchutchuco j&aacute; havia subido no telhado outras vezes, mas eu havia sido suficientemente habilidosa para reverter a situa&ccedil;&atilde;o e prolongar nossa conviv&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Tchutchuco era uma tartaruguinha de aqu&aacute;rio que ganhei de pr&ecirc;mio de consola&ccedil;&atilde;o com a separa&ccedil;&atilde;o dos meus pais. Naturalmente eu queria um cachorro. N&atilde;o. Um gato? De jeito nenhum. Um porquinho da &iacute;ndia! Credo! Um hamster? Deus me livre&#8230; Uma tartaruguinha? Chega, t&aacute; bom, voc&ecirc; venceu. E assim encerramos a negocia&ccedil;&atilde;o pet do final dos anos 90: derrotada pela aus&ecirc;ncia do c&atilde;o, mas um pouco vitoriosa, pois estava pronta para descer mais um n&iacute;vel e me resignar com um peixe.<\/p>\n<p>E assim Tchutchuco chegou quando eu tinha nove anos e partiu quando eu tinha dez, indo &ldquo;morar feliz em um lago, cheio de outros bichos&rdquo; &#8211; o que possivelmente incorreu em um crime ambiental, cometido em nome de um apartamento sem fedor de aqu&aacute;rio sujo.<\/p>\n<p>Talvez seja desde ent&atilde;o, que, inevitavelmente, toda vez que o telefone toca eu acho que &eacute; a not&iacute;cia de que algu&eacute;m morreu. O est&ocirc;mago vai no p&eacute;, as m&atilde;os formigam, sinto uma corrente gelada percorrendo o corpo, at&eacute; que uma atendente de telemarketing mal remunerada anuncie a promo&ccedil;&atilde;o. O mist&eacute;rio dos primeiros segundos de intera&ccedil;&atilde;o &eacute; puro sadismo.<\/p>\n<p>&ndash; Senhora Beatriz?<\/p>\n<p>&ldquo;Eu&rdquo;, respondo r&aacute;pido, para ficar logo em sil&ecirc;ncio, concentrada, procurando barulhos de fundo de uma delegacia, lugar em que nunca estive. Ou&ccedil;o uma digita&ccedil;&atilde;o distante. S&oacute; pode ser um escriv&atilde;o j&aacute; batendo na m&aacute;quina o boletim de ocorr&ecirc;ncia que documenta a trag&eacute;dia. Meu deus&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bom dia senhora Beatriz, aqui quem fala &eacute; a Camila do&#8230;<\/p>\n<p>Camila do IML. Camila assistente social. Camila &eacute; minha prima de terceiro grau? Camila carcereira do corredor da morte. Camila parece estar tensa, sinto uma nota de pesar em sua voz.<\/p>\n<p>&ndash; &#8230; Banco do Brasil. Temos um novo limite de empr&eacute;stimo, a senhora est&aacute; interessada?<\/p>\n<p>Porra, Camila. N&atilde;o se liga para uma pessoa, Camila. N&atilde;o para quem tem medo de per a fam&iacute;lia toda e ser avisada por telefone.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O dia em que fiz meu av&ocirc; gargalhar <\/strong><\/p>\n<p>Luiz Carlos de Oliveira Cecilio<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na grande sala de piso de t&aacute;buas largas que rangia com o peso dos homens, reuniam-se, quase todas as noites, meu av&ocirc; e seus treze filhos homens. Ele teve uma filha mulher, mas, na tradi&ccedil;&atilde;o dos &aacute;rabes, filha casada pertencia &agrave; fam&iacute;lia do marido. Treze filhos reunidos na sala de p&eacute; direito alto, que se abria atrav&eacute;s de duas grandes janelas para um p&aacute;tio sombreado por uma parreira cultivada na tradi&ccedil;&atilde;o trazida do L&iacute;bano meio s&eacute;culo atr&aacute;s. O ch&atilde;o de tijolos, protegido do sol pelas folhas da parreira, transformou-se, com os anos, num tapete de musgo macio e verd&iacute;ssimo, que, pisado, exalava um cheiro vegetal, &uacute;mido e limoso.<\/p>\n<p>Eu gostava de brincar ali sozinho ou com meus primos, territ&oacute;rio de brincadeiras e de faz de conta, &agrave;s margens do mundo enfuma&ccedil;ado de cigarros de palha dos adultos. Ali eu me sentia seguro.<\/p>\n<p>Aquela confraria masculina era fechada para as mulheres que ficavam tagarelando na cozinha, e para as crian&ccedil;as que nunca ousavam entrar na sala, a menos que fossem chamadas para cumprir alguma tarefa demandada pelo velho patriarca, busca meu canivete menino, me traz um copo d&acute;agua, busca o meu chinelo, pega o meu rem&eacute;dio em cima da c&ocirc;moda. Ele foi esquecendo o pouco portugu&ecirc;s que aprendeu &agrave; medida que envelheceu &ndash; esquecendo, tamb&eacute;m, que os netos j&aacute; n&atilde;o sabiam a sua l&iacute;ngua de origem &#8211; e dava as ordens naquela l&iacute;ngua bela e incompreens&iacute;vel, o &aacute;rabe. Quando, por azar, era eu o escolhido, sentia-me tragado por um sorvedouro, uma for&ccedil;a terr&iacute;vel me puxando implac&aacute;vel para um buraco sem fundo. Meus tios, que n&atilde;o falavam, mas compreendiam o &aacute;rabe, faziam a tradu&ccedil;&atilde;o salvadora do comando, e me arrancaram, mais de uma vez, da vertigem da queda em um escuro aterrorizante de medo e desprote&ccedil;&atilde;o. Se a tradu&ccedil;&atilde;o demorasse, e, portanto, o cumprimento da ordem, meu av&ocirc; brandia a bengala amea&ccedil;adora que nunca foi usada, mas era uma possibilidade que ningu&eacute;m queria pagar para ver.<\/p>\n<p>Meu av&ocirc; me inspirava horror.<\/p>\n<p>Ele usava uma barba branca sempre bem aparada desde que a mulher morreu, camisa de manga comprida fechada at&eacute; o pesco&ccedil;o, fumava cigarros de palha que enrolava com a per&iacute;cia de um artes&atilde;o. Nunca sorria, nunca nos dirigia a palavra, ou o olhar. Quando beij&aacute;vamos sua m&atilde;o para pedir a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o &ndash; uma m&atilde;o branca cheia de veias azuis, as unhas bem cortadas, o cheiro de cigarro de palha misturado com vago perfume de sabonete, a tatuagem da estrela do oriente quase apagada pelo tempo- ele respondia alguma coisa como &ldquo;ala-ardalec&rdquo;, que os tios diziam ser deus-te-aben&ccedil;oe.<\/p>\n<p>Um dia, com doze anos, fiz algo que irritou muito minha m&atilde;e, numa fase dela infeliz e frustrada com a vida dom&eacute;stica. Ela, n&atilde;o s&oacute; me bateu, como, exasperada, come&ccedil;ou a me a&ccedil;oitar com ofensas que do&iacute;am mais do que as chineladas. Fiquei muito ferido com aquilo. O que ela gritava ultrapassou o que minha dignidade de menino podia suportar, e, num arroubo, com as orelhas queimando &#8211; a alma em tumulto por experimentar, pela primeira vez, a terr&iacute;vel sensa&ccedil;&atilde;o de amor e &oacute;dio pela mesma pessoa &#8211; senti aflorar em mim a possibilidade da rebeli&atilde;o: uma planta selvagem, cheia de seiva e vigor brotou no meu peito.<\/p>\n<p>Decidi fugir. Eu tinha que fugir. S&oacute; n&atilde;o sabia para onde. Doze anos de idade. Onde buscar abrigo? Decidi ir para a casa do meu av&ocirc; que morava na mesma rua, bem na casa onde n&atilde;o havia promessa nenhuma de acolhimento. Mas fui, no instinto. Av&ocirc;, quem sabe. Cheguei, e o encontrei sozinho sentado debaixo da parreira. A hora do dia era muito quente, mas ali estava fresco, o cheiro vegetal do tapete de musgo, a parreira coberta de folhas novas, os primeiros cachinhos de uvas verdes depois da poda anual. Ele estava com um pijama listado, sentado na sua cadeira de balan&ccedil;o, a bengala encostada do lado, enrolando um cigarro de palha. Olhou-me curioso quando entrei. Sorriu um sorriso curto. Sentei-me no tapete de musgo por n&atilde;o me ocorrer outro gesto&nbsp; depois de lhe beijar a m&atilde;o e pedir a ben&ccedil;&atilde;o. A&iacute; ele me dirigiu a palavra pela primeira vez na vida, numa mistura de &aacute;rabe e portugu&ecirc;s. Fiquei espantado de entender o que ele dizia: eu estava sem medo. Fez perguntas, mas n&atilde;o me lembro de nada que perguntou. S&oacute; me recordo que ele me enxergava, me descobria como neto. Ficamos os dois, serenos. Um av&ocirc; e um neto, sem a confraria dos homens que era uma cordilheira que barrava meu acesso ao ele. Entre ele e eu, uma plan&iacute;cie. N&atilde;o me ofereceu nada, a n&atilde;o ser permitir que eu ficasse ali exilado a tarde toda, protegido da f&uacute;ria da minha m&atilde;e.<\/p>\n<p>Para acessar o p&aacute;tio onde est&aacute;vamos, vindo da copa, havia uma pedra, que funcionava como um degrau.&nbsp; Naquela nossa surpreendente camaradagem, apontou a pedra com a bengala, e pediu que eu a arrastasse. Uma ordem meio absurda para uma crian&ccedil;a, mas me pediu com uma cara amistosa. N&atilde;o era uma ordem; era um pedido. E eu obedeci feliz. Era t&atilde;o bom ter um av&ocirc;. Fiz todo o esfor&ccedil;o que podia. Coloquei todas as minhas for&ccedil;as de menino &#8211; queria tanto agradar meu av&ocirc; -, mas a pedra n&atilde;o se moveu nem um cent&iacute;metro. Ent&atilde;o, meu av&ocirc; deu uma gargalhada espantosa, gostosa, mostrando os grandes dentes amarelados pelo fumo: a pedra era cimentada ao ch&atilde;o, e, l&oacute;gico, n&atilde;o poderia ser nunca deslocada. Brincadeira mais sem gra&ccedil;a, mais absurda, mas ele gargalhou, e aquela gargalhada foi minha experi&ecirc;ncia inaugural de que eu poderia desencadear afetos, poderia fazer rir, me fazer amar: afinal, eu n&atilde;o era a criatura horr&iacute;vel que minha m&atilde;e me acusou. A gargalhada do v&ocirc; me anistiou.<\/p>\n<p>A felicidade que eu sentia era t&atilde;o grande que n&atilde;o encontrava lugar dentro do meu peito de menino. Fui levitando para casa.<\/p>\n<p>Quando cheguei l&aacute;, j&aacute; escurecendo, vi muita gente da vizinhan&ccedil;a na porta de casa, e at&eacute; uma viatura da r&aacute;dio-patrulha. Lembro do olhar ansioso e da m&atilde;o gelada do meu pai pegando aflito a minha. Onde voc&ecirc; estava meu filho? Minha m&atilde;e, aos gritos: onde voc&ecirc; estava menino? Eu cada vez mais surpreso com a repercuss&atilde;o da minha pequena rebeldia, de como eu tinha sido capaz de produzir como&ccedil;&atilde;o t&atilde;o grande naquele que era meu mundo de ent&atilde;o, fui visitar o vov&ocirc;, ficamos conversando a tarde toda. J&aacute; enfiando&nbsp; unhas de a&ccedil;o no meu bra&ccedil;o, minha m&atilde;e hist&eacute;rica, voc&ecirc; quase nos deixou loucos, nunca mais fa&ccedil;a isso, nunca mais, e foi me arrastando para dentro de casa aos tabefes, na frente de todo mundo: uma r&iacute;gida m&aacute;scara da vergonha grudada no meu rosto, meu corpo em queda livre em um precip&iacute;cio, a sess&atilde;o de ofensas retomada com mais furor,&nbsp; chance nenhuma de perd&atilde;o, eu j&aacute; sabia: minha tarde de prazer derretendo feito sorvete derrubado na cal&ccedil;ada em dia de sol quente.<\/p>\n<p>N&atilde;o senti as chineladas, n&atilde;o escutei as ofensas, n&atilde;o chorei uma l&aacute;grima.<\/p>\n<p>Tem dia que penso que nunca me curei da dor de ter encontrado meu av&ocirc;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tia<\/strong><\/p>\n<p>Silvia Piorno Schiavon<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sempre ver&atilde;o no Rio, C&aacute;tia lembra muito bem desse dia at&iacute;pico e fresco no apartamento botafoguense da tia, irm&atilde; mais nova da sua m&atilde;e.<\/p>\n<p>Ela e a fam&iacute;lia iam l&aacute; com certa frequ&ecirc;ncia e C&aacute;tia tinha fascina&ccedil;&atilde;o por aquele lugar.<\/p>\n<p>A tia n&atilde;o tinha filhos e o que havia ali era somente de e para adultos. Livros e mais livros e mais livros, bibel&ocirc;s quebr&aacute;veis de toda estirpe, garrafas e jarras de v&aacute;rias cores e tamanhos, quadros de museus do mundo inteiro, minud&ecirc;ncias para dar e vender.<\/p>\n<p>Cheiro de gente crescida.<\/p>\n<p>Nesse domingo n&atilde;o s&oacute; a sua fam&iacute;lia tinha sido convidada para a feijoada, especialidade da tia, como os tios e primos tamb&eacute;m. Era muita gente quase apertada naquele dois-quartos-sala-cozinha-e-banheiro e C&aacute;tia era a mais nova. Raspa de tacho. Todos ali tinham terminado, pelo menos, o primeiro ano da faculdade.<\/p>\n<p>Mi&uacute;da perto dos primos e irm&atilde;os altos e atl&eacute;ticos, ela perambulava da cozinha para o escrit&oacute;rio, inventando contos e fadas at&eacute; o quarto, explorando o banheiro como uma detetive, passando o dia desapercebida, mas cuidando para n&atilde;o estragar nenhum livro e atenta com o copo de suco de jabuticaba, especialidade da m&atilde;e.<\/p>\n<p>O sol j&aacute; ia embora quando a tia, cheia de cerveja e demasiado alegre, come&ccedil;ou a distribuir presentes p&oacute;stumos. Livros e discos em destaque: a cole&ccedil;&atilde;o do Chico ficar&aacute; com o Pedro, irm&atilde;o de C&aacute;tia e, segundo a tia, m&uacute;sico frustrado da fam&iacute;lia; a edi&ccedil;&atilde;o especial de Fausto ir&aacute; para o tio Adriano, &uacute;nico homem daquela gera&ccedil;&atilde;o e com tend&ecirc;ncias tr&aacute;gicas e excessivamente dram&aacute;ticas, ela sempre o provocava.<\/p>\n<p>E assim foi enumerando item por item, familiar por familiar, entre risos murchos e coment&aacute;rios abafados, alguns raivosos e entre dentes, outros felizes e afirmativos. At&eacute; que parou e abriu outra cerveja.<\/p>\n<p>Antes que o f&ocirc;lego silencioso da fam&iacute;lia terminasse, C&aacute;tia perguntou se para ela a tia deixaria aquele LP.<\/p>\n<p>N&atilde;o, para voc&ecirc; n&atilde;o deixarei nada.<\/p>\n<p>C&aacute;tia levou um susto, tremeu de decep&ccedil;&atilde;o e surpresa e uma tristeza invadiu o seu corpinho de 9 anos. Ajoelhada no ch&atilde;o de tacos de madeira, com o long play no colo, viu cair uma l&aacute;grima em Tchaikovsky e mais uma e outra gota.<\/p>\n<p>Ela s&oacute; tinha partituras dele.<\/p>\n<p>Ela n&atilde;o era querida ali.<\/p>\n<p>O burburinho da fam&iacute;lia j&aacute; ia avan&ccedil;ado quando ela secou as bochechas e colocou o disco no lugar, tomando cuidado para encaix&aacute;-lo corretamente na ordem alfab&eacute;tica, especialidade do tio; entre Simon &amp; Garfunkel e Toquinho.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O pequeno pr&iacute;ncipe<\/strong><\/p>\n<p>Fernanda Machado<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Meus cotovelos est&atilde;o apoiados no a&ccedil;o que cobre a roda do trator. Meu corpo inteiro treme ao andar pelos buracos da estrada. Sou do tamanho da roda do trator.<\/p>\n<p>Meu rosto tremelica com o vento. &Eacute; vento e sol e sombra sem parar e n&atilde;o consigo ficar com os olhos abertos. &Eacute; muito bom!<\/p>\n<p>Me sinto muito importante em p&eacute;, uma gigante com rodas que amassam tudo e n&atilde;o t&ecirc;m medo de nada. E mesmo de olhos fechados sei que a gola da cacharrel cor de vinho me faz ficar com o pesco&ccedil;o retinho, de bailarina. Eu, a cacharrel e a galocha. Me lembrou o pequeno pr&iacute;ncipe. Kiko, o meu primo, est&aacute; na roda ao lado. De vez em quando ele me olha e sorri com o vento que deixa o cabelo dele como o do cara do The Cure, que a minha irm&atilde; n&atilde;o para de ouvir. S&oacute; que sem olheiras. Ele tamb&eacute;m me lembra o pequeno pr&iacute;ncipe, s&oacute; que sem galocha. Ele gosta de andar descal&ccedil;o e n&atilde;o tem medo de espinho ou cobra ou lama ou coc&ocirc; de vaca. E depois senta e fica arrancando os cascos do ded&atilde;o. Acho que o p&eacute; dele, mesmo sujo, &eacute; bonito.<\/p>\n<p>Nesse dia, ia ter o esvaziamento do tanquinho. Um lago bem grande com &aacute;gua marrom, tipo terra cremosa. Todo mundo da fazenda, as crian&ccedil;as e os adultos, iam pra l&aacute; para pegar os peixes. Nesse dia n&atilde;o pensei para onde iria tanto peixe, s&oacute; como eu poderia agarr&aacute;-los. Quando o trator chegou, metade da &aacute;gua j&aacute; tinha ido embora do tanquinho. E as pessoas j&aacute; estavam com o corpo metade enlameado. No come&ccedil;o n&atilde;o quis entrar: primeiro porque a areia movedi&ccedil;a fazia parte de todos os meus pesadelos. E se eu pisasse e a lama me sugasse. E mesmo que algu&eacute;m quisesse me salvar e me desse a m&atilde;o, eu n&atilde;o ia querer, porque a for&ccedil;a da areia movedi&ccedil;a &eacute; maior, engole tudo, at&eacute; uns 3 adultos de m&atilde;os dadas. E, depois porque eu ia sujar a minha cacharrel vinho. Os adultos nunca ligavam muito para as crian&ccedil;as e ficavam gargalhando entre eles. Se algu&eacute;m de n&oacute;s chegasse, eles automaticamente perguntavam: cad&ecirc; fulana\/o, vai l&aacute; brincar com ele\/a que aqui &eacute; conversa de adulto. E um deles fazia algum coment&aacute;rio que eu n&atilde;o entendia. E todos riam. Os peixes enlameados come&ccedil;avam a saltar alto pra cima da lama e a gente tinha pouco tempo para agarr&aacute;-los joga-los na &aacute;gua dos grandes baldes. Uma parte deles iria virar comida, a outra seria devolvida para um outro lago. Meu primeiro peixe ficou meio segundo nas m&atilde;os e escorregou voltando pra lama. Foi uma sensa&ccedil;&atilde;o muito estranha. Aquela carne mole, viscosa, que n&atilde;o parava de se mexer. O Kiko estava no resgate do d&eacute;cimo peixe e j&aacute; tinha colocado uns dois dentro da cueca&nbsp; do Marcelo, o irm&atilde;o mais velho. Os peixes n&atilde;o escorregavam da sua m&atilde;o, parecia. Ele apertava os peixes no peito, sujando a camiseta branca que ficou cheia de marcas dos rabos. Eu queria aquela camiseta. Ia colocar num varal ao lado da minha cacharrel e o vento ia chegar alguma hora para elas ficarem dan&ccedil;ando juntas. Eu peguei 3 peixes durante todo o dia. Tinha medo de apertar demais e matar. E isso acontecia tamb&eacute;m com passarinhos, massa de p&atilde;o e crian&ccedil;as menores que eu. Eu n&atilde;o era de apertar forte e o Kiko dizia que eu era muito medrosa com tudo.<\/p>\n<p>De ponta dos p&eacute;s, meus olhos davam na altura da beira da panela. A gente estava esperando a &aacute;gua ferver para fazer o ensopado dos peixes. Toda hora eu ia na cozinha ver se a &aacute;gua j&aacute; tinha fervido. Eu achava que sim porque j&aacute; fazia um tempo que o fogo estava queimando o fundo da panela sem parar. Mas a Maria dizia que ferver come&ccedil;ava com umas bolinhas pequenas embaixo e depois elas viravam grandes e estouravam em cima.&nbsp; O tempo de fervura era igual ao tempo de viajar com os pais no banco de tras do carro, &agrave; aula de educa&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica, &agrave; noite de natal ou o meu irm&atilde;o dentro a barriga da minha m&atilde;e. S&atilde;o coisas que nunca chegam e a gente fica com um sentimento de arranhar a parede para ver se passa.<\/p>\n<p>&ndash; O Jesus, Maria, Jos&eacute;! O bicho est&aacute; vivo. &ndash; ouvimos o grito da Maria l&aacute; da copa.<\/p>\n<p>Nessa hora, o Kiko estava me desafiando a morder uma pimenta bem vermelha que parecia de pl&aacute;stico. Mas com o berro, sa&iacute;mos correndo pra ver o que era. Um dos peixes da bacia ainda dava seus pulos e a Maria tomou um susto t&atilde;o grande que n&atilde;o conseguia levantar da cadeira, se abanando com o avental e rezando, fezendo o sinal da cruz.<\/p>\n<p>O Kiko pegou o peixe que ainda se chacoalhava e o apertou no seu peito, com cara de coragem for&ccedil;ada. E eu percebia isso porque a cada espasmo do peixe, o olho dele ficava mais esbugalahado que o do bicho. A Maria quieta, eu quieta. O peixe foi minguando, minguando, diminuindo os espasmos. At&eacute; que as batidas do cora&ccedil;&atilde;o do Kiko embalaram o escamoso para o para&iacute;so dos peixes. Eu vi o Kiko tremer sem se mexer. Eu vi at&eacute; uma l&aacute;grima que escapou rolando no seu rosto ainda sujo de lama, abrindo um caminho mais claro na sua bochecha. Como n&atilde;o sabia o que sentir, olhei a pimenta que ainda estava na minha m&atilde;o e mordi com toda a for&ccedil;a que eu tinha.&nbsp; Fiquei ardendo muito, inteira, mas n&atilde;o gritei. E finalmente a &aacute;gua come&ccedil;ou a ferver.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A melhor piada que eu fiz na minha vida<\/strong><\/p>\n<p>Marcel Souza<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Est&aacute;vamos no carro, eu, meu irm&atilde;o, meu pai e minha m&atilde;e, chegando em S&atilde;o Paulo. Meu irm&atilde;o do meu lado, meu pai dirigindo e minha m&atilde;e no banco do lado.<\/p>\n<p>Era um Vectra, o carro. Lembro da sua porta, da ma&ccedil;aneta fosca, um pouco &aacute;spera, de pl&aacute;stico. Ela acompanhava o formato da porta e cavava um espa&ccedil;o onde entravam os dedos para pux&aacute;-la e abri-la. Eu lembro do bot&atilde;o da trava dessa porta. Preto e vermelho, igual um dedo com a unha pintada de vermelho. E nesta parte pintada tinha ainda uma textura granulada, mais acentuada, ela raspava e grudava no dedo com facilidade para voc&ecirc; puxar. Para empurrar, voc&ecirc; empurrava com a ponta do dedo em cima dela.<\/p>\n<p>Se eu pudesse eu ficava puxando e empurrando aquela trava quantas vezes fosse poss&iacute;vel. Era muito bom sentir aquele movimento repetido. Mas, claro, n&atilde;o podia. Se ficasse abrindo e fechando, como um monte de outros interruptores e bot&otilde;es por a&iacute;, como dizem os adultos, uma hora ia estragar.<\/p>\n<p>Mas eu fiz isso, sim, algumas vezes escondido. As coisas n&atilde;o quebram t&atilde;o f&aacute;cil assim, n&atilde;o. E tinha uma finalidade aquilo, a indistin&ccedil;&atilde;o entre aberto e fechado, em cima e em baixo, ou a pr&oacute;pria indistin&ccedil;&atilde;o da fun&ccedil;&atilde;o daquele bot&atilde;o, eram muito instigantes. &ldquo;Isso serve para travar&rdquo;, dizem os adultos, mas voc&ecirc; vai ver o que &eacute; isso e se depara com um dedo preto com a unha pintada. &Eacute; inaceit&aacute;vel essa autoridade que eles t&ecirc;m para sair dizendo por a&iacute; com tanta certeza o que &eacute; e para que devem servir as coisas.<\/p>\n<p>N&atilde;o era s&oacute; uma porta, uma ma&ccedil;aneta e uma tranca. Tinha toda uma m&iacute;stica do funcionamento daquela porta&#8230; A trava da porta do lado do meu pai, por exemplo, era especial. Quando ela abaixava, todas as outras abaixavam juntas, sem explica&ccedil;&atilde;o nenhuma, e faziam um barulho ritual&iacute;stico. &ldquo;Drum&rdquo;. Entrava, botava o sinto, &ldquo;drum&rdquo; e o corpo at&eacute; vibrava junto com o carro se trancando.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, tudo isso tamb&eacute;m era verdade, para al&eacute;m da porta, da ma&ccedil;aneta e da tranca. Era verdade e ningu&eacute;m falava o porqu&ecirc;.<\/p>\n<p>&Eacute; que este, assim como outros, s&atilde;o do tipo do saber que todo mundo sabe somente enquanto pensa &ldquo;deve ser por conta disso ou por conta daquilo&rdquo;, mas que, no fundo, no fundo, ningu&eacute;m sabe bosta nenhuma.<\/p>\n<p>Os adultos, inclusive, principalmente meu pai, se sentem quase ofendidos se voc&ecirc; insiste em questionar eles por a&iacute;, por onde as coisas &ldquo;devem ser&rdquo;. Muitas vezes, diante dessas quest&otilde;es, eles tentam nos explicar &ldquo;o que eles sabem&rdquo;, que basicamente &eacute; uma parte de como as coisas s&atilde;o, que eles sabem justificar. A quest&atilde;o &eacute; que n&atilde;o &eacute; uma justificativa que n&oacute;s queremos quando a gente sobe e desce a trava da porta mil e uma vezes, ou porque queremos saber como as coisas s&atilde;o de fato, o que queremos na verdade &eacute; saber como &eacute; que algu&eacute;m pode dizer o que &eacute; e o que n&atilde;o &eacute;, como &eacute; e como n&atilde;o &eacute;: a onde, entre o que &eacute; e o que supostamente deve ser, os adultos pisam para se sustentar?<\/p>\n<p>N&atilde;o pisam. Na pr&aacute;tica, o adulto flutua e com muita arrog&acirc;ncia. Provavelmente porque ele foi encontrando com tantos &ldquo;deve ser assim&rdquo; por a&iacute; que se tornou um deles. Os adultos, eles n&atilde;o s&atilde;o alguma coisa com p&eacute; no ch&atilde;o tal como eles tentam parecer. Se tem p&eacute; no ch&atilde;o nessa hist&oacute;ria, s&oacute; podem ser trope&ccedil;os de um b&ecirc;bado que o h&aacute;bito camuflou em passos cotidianos do trabalho &aacute;rduo. Os adultos escondem o que eles de fato s&atilde;o nos elevados valores morais desse h&aacute;bito em que as coisas s&atilde;o como devem ser.<\/p>\n<p>Mas devem ter raz&atilde;o para fazer isso, afinal &eacute; com eles que eu me sentia protegido, sentia que eles sabiam o que fazer com meu medo e qualquer sofrimento. Acho que o &ldquo;dever&rdquo; das coisas como elas &ldquo;devem ser&rdquo; d&aacute; uma esp&eacute;cie de amparo para que as coisas sejam tal como n&oacute;s as conhecemos. O dever &eacute; a rodinha da bicicleta das coisas, eu diria, naquela &eacute;poca. Eu estava aprendendo a andar de bicicleta sem rodinha e vivia o drama de tentar descobrir como controlar aquilo sem cair. Naquela tarde, no carro, em S&atilde;o Paulo, eu elaborava essa situa&ccedil;&atilde;o na minha cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>Eu tinha muito medo de cair, e essa, basicamente, era toda a quest&atilde;o. N&atilde;o tem for&ccedil;a que voc&ecirc; fa&ccedil;a que faz a bicicleta se equilibrar. Me intrigava aquelas imagens dos adultos andando tranquilos e despreocupados em suas bicicletas pelas cidades e pelos campos. De onde vinha aquela postura t&atilde;o despojada na hora de se equilibrar?<\/p>\n<p>N&atilde;o era uma quest&atilde;o de for&ccedil;a para mant&ecirc;-la de p&eacute;, n&atilde;o adianta segurar com for&ccedil;a, ela cai de qualquer jeito. Aparentemente, o medo era a chave da solu&ccedil;&atilde;o desse enigma. Eu tinha que tentar incorporar o estilo despreocupado, eu apostava.<\/p>\n<p>Bom, mas isso n&atilde;o deu muito certo. A solu&ccedil;&atilde;o do enigma eu n&atilde;o descobri quando eu deveria &ndash; as boas solu&ccedil;&otilde;es sempre vem quando elas j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o mais necess&aacute;rias, n&atilde;o &eacute;? &ndash; e, al&eacute;m disso, quando eu descobri, j&aacute; tinha me esquecido a grande li&ccedil;&atilde;o da quest&atilde;o.<\/p>\n<p>Eu ca&iacute;, me arrebentei no ch&atilde;o. Fiquei triste e nem sei se do&iacute;a muito. Fiz que do&iacute;a, pois eu ca&iacute; e l&aacute; estava eu fazendo o que devia fazer, me doendo, dando toda raz&atilde;o para os adultos.<\/p>\n<p>Mas o meu pai, que me esperava do outro lado do morro, quando eu ca&iacute;, ele riu e riu&#8230; e veio rindo me socorrer. N&atilde;o correspondia de modo algum ao que eu queria que ele fizesse. Ele deve ter falado alguma coisa como uma li&ccedil;&atilde;o de moral, na hora, mas o que ele estava mesmo dizendo com aquela risada era secreto, estava al&eacute;m do que ele queria dizer, guardado como um segredo naquele riso.<\/p>\n<p>Eu estava encontrando outra crian&ccedil;a ali, eu acho, que me dizia &ldquo;as coisas n&atilde;o quebram t&atilde;o f&aacute;cil assim, n&atilde;o&rdquo;. Todo aquele sofrimento e valor tr&aacute;gico que eu dava para o meu tombo, ele via nisso algo de habitual, c&ocirc;mico.<\/p>\n<p>Chegando em S&atilde;o Paulo, est&aacute;vamos no tr&acirc;nsito e n&oacute;s no Vectra. Era um morro, tudo estava parado e pairava um sil&ecirc;ncio dentro do carro. Meu pai, como um adulto, pensava em como as coisas deviam ser feitas no volante, minha m&atilde;e, outra adulta, observava se meu pai estava fazendo as coisas como elas deviam ser feitas no volante, meu irm&atilde;o e eu esperando o momento em que&#8230;<\/p>\n<p>&ndash; &#8230;aaaaaaaaAAAAaaaaaaa&#8230;<\/p>\n<p>Tem um cara gritando. &Eacute; um cara gritando em cima de uma bicicleta, ele t&aacute; pedalando e berrando.<\/p>\n<p>N&atilde;o tinha ningu&eacute;m atr&aacute;s, ningu&eacute;m na frente. Era s&oacute; algu&eacute;m andando e gritando de bicicleta.<\/p>\n<p>Minha m&atilde;e deve ter sentido a necessidade de explicar, porque falou dentro do carro: &ldquo;Oia o b&ecirc;bado. Deve t&aacute; b&ecirc;bado&#8230;&rdquo;.<\/p>\n<p>Aquilo parecia atrapalhar o meu pai a entender como as coisas deviam ser no tr&acirc;nsito e ele n&atilde;o falava nada com cara de bravo no volante.<\/p>\n<p>Eu e meu irm&atilde;o ficamos olhando, intrigados. No sil&ecirc;ncio, onde a explica&ccedil;&atilde;o da minha m&atilde;e se desfazia no h&aacute;bito, latejava a quest&atilde;o inquieta &#8220;Porque aquele homem estava gritando e andando de bicicleta na rua?&#8221;.<\/p>\n<p>Eu pensei bem em como as coisas deviam ser quando se anda de bicicleta na rua sozinho e entendi a situa&ccedil;&atilde;o daquele mo&ccedil;o: &#8220;Ele deve t&aacute; com medo de andar de bicicleta sem rodinha&#8230;&#8221;, disse com seriedade e sobriedade, em voz alta.<\/p>\n<p>Meu irm&atilde;o chorava de tanto rir. Ele teve que explicar para meus pais, logo em seguida, e eles riram bastante tamb&eacute;m. Na hora, eu n&atilde;o entendi o que aconteceu. S&oacute; fui entender bem mesmo o que eu fiz ali quando meu irm&atilde;o j&aacute; era um adulto e disse que aquela foi a piada mais engra&ccedil;ada que eu j&aacute; fiz na minha vida.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Esta&ccedil;&atilde;o fantasma<\/strong><\/p>\n<p>Malena D&rsquo;Elia Otero<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A chegada dos jogos panamericanos na cidade tinha sido recebida com muito clamor. Na tarde que a tocha ol&iacute;mpica passou na frente de sua casa, Sofia ficou empolgada, t&atilde;o empolgada que at&eacute; tinha brincado com seus primos de ter sua pr&oacute;pria tocha ol&iacute;mpica ateando fogo numa vassoura de palha e correndo pelo quintal.<\/p>\n<p>Sofia sabia o que era uma partida de futebol ou uma competi&ccedil;&atilde;o de nata&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o via menor gra&ccedil;a em assistir a essas coisas. A abertura dos jogos vista desde a &uacute;ltima fileira de assentos na arquibancada a fez sentir como quando observava as formigas caminhando pelo quintal. Mas a maior novidade que tinha feito brilhar seus olhos era a patina&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica. Ficava hipnotizada com aquelas roupas coloridas, a maquiagem purpurinada e a leveza com que os patinadores rodopiavam no ar. Desde ent&atilde;o, Sofia tinha passado a sonhar com dan&ccedil;ar sobre rodas com uma roupa de lantejoulas.<\/p>\n<p>Numa tarde de s&aacute;bado, ganhou de seus av&oacute;s seus patins pretos com detalhes roxos. Um pouco diferentes dos que se usavam nas competi&ccedil;&otilde;es porque estes tinham as rodas enfileiradas. Sofia tinha escolhido o modelo de cadar&ccedil;os, j&aacute; sabia amarrar e dar la&ccedil;o sem a ajuda de ningu&eacute;m, diferente do irm&atilde;o que usava o modelo de presilhas, preto com detalhes amarelo fosforescente. Aprendeu a andar sozinha naquela mesma tarde, dando voltas na garagem dos av&oacute;s. Primeiro, segurando na parede e depois, pouco a pouco, soltando-se e cobrindo o espa&ccedil;o todo.<\/p>\n<p>No s&aacute;bado que ganhou seu tesouro, foi dormir com a promessa de estrear seus cal&ccedil;ados rolantes no dia seguinte. Sofia gostava de dormir na casa desses av&oacute;s. A casa era pequena e n&atilde;o fazia barulhos estranhos, como a dos outros av&oacute;s que rangia durante a noite. Ao deitar, adormecia com a melodia do guarda que passava assobiando com um apito pela rua e acordava com a buzina do trem da manh&atilde;, que passava na esta&ccedil;&atilde;o a tr&ecirc;s quadras da casa.<\/p>\n<p>A esta&ccedil;&atilde;o tinha visto dias mais gloriosos, o pr&eacute;dio que j&aacute; tinha sido branco hoje estava coberto de manchas pretas de umidade e de picha&ccedil;&otilde;es. As plataformas onde antes se amontoavam as fam&iacute;lias ricas que vinham aproveitar as f&eacute;rias de ver&atilde;o na praia, hoje passavam a maior parte do tempo desertas. A cidade tinha deixado de ser um polo tur&iacute;stico e era apenas passagem para os que seguiam rumo a outros lugares mais pitorescos. Os bancos de madeira se ofereciam como um lugar de descanso para os que n&atilde;o tinham onde morar.<\/p>\n<p>O fim de semana na casa dos av&oacute;s s&oacute; era completo quando finalizava com uma visita &agrave; esta&ccedil;&atilde;o. Brincava com seu irm&atilde;o numa antiga locomotiva de carv&atilde;o que adornava sua entrada. Fingiam ser maquinistas ou passageiros rumo a lugares desconhecidos. &Agrave;s vezes, coincidia de estarem l&aacute; nos hor&aacute;rios que o trem cruzava a esta&ccedil;&atilde;o a todo vapor. Escutavam a sirene que anunciava a chegada e viam a barreira descer na avenida para impedir a circula&ccedil;&atilde;o dos carros. O irm&atilde;o ent&atilde;o corria com o av&ocirc; pra plataforma para sentir na sua cara o vento que anunciava a chegada do trem. Sofia nunca ia. Para sentir aquele sopro de liberdade no rosto havia um pre&ccedil;o a se pagar.<\/p>\n<p>A &uacute;nica maneira de chegar na plataforma era atravessar uma passagem subterr&acirc;nea que a separava do pr&eacute;dio principal da esta&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o era permitido atravessar pelos trilhos. Algumas pessoas, num ato de coragem, o faziam e Sofia ficava arrepiada s&oacute; de pensar nessa ideia porque a lembrava de uma cena do filme Tomates verdes fritos, que as primas mais velhas gostavam de assistir, na qual um rapaz ficava preso no trilho. E Sofia nem sabia que fim o rapaz tinha, porque era a hora que ela apertava os olhos, tampava os ouvidos e sa&iacute;a correndo da sala de TV.<\/p>\n<p>Sofia tinha convic&ccedil;&atilde;o plena de que aquela passagem era um portal no qual alguma coisa se deixava. Os poucos passageiros que dali vinham retornavam com caras cansadas e p&eacute;s arrastados. Os que dali partiam chegavam ao outro lado sempre com os olhos cheios de l&aacute;grimas. Seu irm&atilde;o e seu av&ocirc; eram os &uacute;nicos que pareciam indiferentes ao efeito daquela passagem. Deveria ser porque eles eram muito r&aacute;pidos, velozes o suficiente para que a maldi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ca&iacute;sse sobre eles.<\/p>\n<p>Uma escada &iacute;ngreme abria o portal: uma boca gigantesca, monstruosa, t&atilde;o escura que tornava a dist&acirc;ncia infinita. As vozes daqueles poucos que atravessavam o portal se multiplicavam. Sofia tinha certeza que eram, na verdade, as vozes dos seres que ali habitavam e que se deliciavam com as pobres almas dos que precisavam atravessar a passagem subterr&acirc;nea. Esses seres suavam tanto que deixavam o caminho &uacute;mido e impregnado de um cheiro forte de xixi, que sa&iacute;a do t&uacute;nel em baforadas azedas.<\/p>\n<p>Uma &uacute;nica vez, quando n&atilde;o precisava de duas m&atilde;os para contar sua idade, Sofia tinha tentado se aventurar com o irm&atilde;o. Tinha descido tr&ecirc;s degraus, com o cora&ccedil;&atilde;o pulando dentro de sua garganta, mas suas pernas curtas n&atilde;o tinham dado conta de acompanhar o irm&atilde;o e quando ele sumiu na escurid&atilde;o correndo, achou melhor escalar de volta &agrave; companhia da av&oacute;.<\/p>\n<p>Naquela manh&atilde;, Sofia ia estrear seus patins no mundo real, quebrando as barreiras do conforto da garagem. Os av&oacute;s haviam prometido lev&aacute;-los para patinar em algum lugar amplo de pisos lisos. Sofia ainda n&atilde;o tinha sua roupa de lantejoulas, mas se via dan&ccedil;ar, girar e pular segurando as m&atilde;os do irm&atilde;o. Presa no seu devaneio art&iacute;stico, Sofia n&atilde;o percebeu que caminhavam rumo &agrave; esta&ccedil;&atilde;o de trens, cada um carregando seus patins em m&atilde;os.<\/p>\n<p>Quando se viu de frente ao portal das almas viajantes penosas, a garganta se fechou com o vapor que sa&iacute;a do t&uacute;nel. Os patins come&ccedil;aram a escorregar das suas m&atilde;os encharcadas de suor. Sofia soube que as criaturas do t&uacute;nel do horror tinham iniciado o processo de sugar um pouco de sua alma quando seus olhos se encheram de l&aacute;grimas como os dos passageiros que ela via partir e quando o av&ocirc;, alguns degraus mais abaixo, chamou por ela e sua voz ricocheteou pelo espa&ccedil;o. As criaturas deveriam estar sedentas por sangue novo porque naquela manh&atilde; n&atilde;o havia pessoas atravessando o portal nem chegando de trem.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o sua av&oacute; segurou seus patins e o irm&atilde;o, sua m&atilde;o. Dessa vez ele n&atilde;o correu e fez um gesto para tampar o nariz com a outra m&atilde;o livre. Apertou os olhos como quando assistia &agrave; cena de Tomates verdes fritos. Confiou na experi&ecirc;ncia do irm&atilde;o mais velho e se deixou puxar. N&atilde;o abriu os olhos em todo o trajeto e atravessaram o t&uacute;nel protegidos por seres divinos cujas vozes se assemelhavam a do irm&atilde;o e a da av&oacute;. Quando achou que fosse desmaiar pelo esfor&ccedil;o de correr sem respirar, o caminho foi ficando cada vez mais claro e um portal brilhante se abriu escada acima: o alvorecer das trevas da esta&ccedil;&atilde;o de trens. Renasceu na plataforma e respirou fundo quando o trem soprava a sua chegada.<\/p>\n<p>Naquela manh&atilde;, a pista de patina&ccedil;&atilde;o de Sofia foi a plataforma do trem. Ao som de apitos, sirenes e buzinas, Sofia e seu irm&atilde;o rodopiaram no ar. Dan&ccedil;aram sobre o tapete liso da plataforma, empurrados pelos ventos dos trens que passavam rasgando a esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A curva Tamburello<\/strong><\/p>\n<p>Felipe Paparella Pessota<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Luciano mirava hipnotizado o tapete em que estava sentado. A tape&ccedil;aria preenchida por uma s&eacute;rie de losangos cinzas envoltos por uma moldura marrom rejeitava uma mancha e acolhia a crian&ccedil;a de tr&ecirc;s anos. A m&aacute;cula lembrava &ldquo;uma borboleta?&rdquo;. Algu&eacute;m, num esfor&ccedil;o de limpeza, espalhou o que quer que tivesse ca&iacute;do ali e dado asas &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o infantil. &ldquo;Uma borboleta flutuando entre quadrados tortos!&rdquo;. N&atilde;o tinha certeza se foi da vez que vomitou depois de tanto girar no pr&oacute;prio eixo enquanto ainda engolia a janta. Ou se tratava de mais um epis&oacute;dio de descontrole da bexiga. &ldquo;Tem uma bexiga dentro da gente?&rdquo;.<\/p>\n<p>Os gritos dos adultos na sala o despertaram da luta contra a pr&oacute;pria mem&oacute;ria e o excesso de imagina&ccedil;&atilde;o. Levantou a cabe&ccedil;a a tempo de registrar o murchar de quatro risos: de seu av&ocirc; Lucio, de seu tio Lucio Jr. e que todos chamavam de tio Juju, da sua m&atilde;e Lucia, e de seu pai Osmair. Todos levaram as m&atilde;os &agrave;s t&ecirc;mporas, num movimento t&atilde;o coordenado que mais parecera um passo de um espet&aacute;culo de dan&ccedil;a contempor&acirc;nea ou, para o pequeno Luciano, de um musical da Disney. Os quatro se espremiam em um sof&aacute; de dois lugares tamb&eacute;m marrom, em que os desenhos de costelas-de-ad&atilde;o por toda a extens&atilde;o convidavam a borboleta para um voo al&eacute;m do tapete sisudo. Luciano ganhava horas passando o dedinho nos contornos das plantas costuradas. O av&ocirc; Lucio, sentado &agrave; direita, revelou de relance uma fragilidade no olhar que Luciano tinha visto uma &uacute;nica vez. Mal sabia, e como poderia, mas seu av&ocirc; perderia a vista do olho esquerdo em alguns anos por conta de um c&acirc;ncer; a imagem do espa&ccedil;o sem o globo ocular assombraria a mente de Luciano a cada coceira de p&aacute;lpebras.<\/p>\n<p>&ndash; Ah, olha l&aacute;, mexeu a cabe&ccedil;a! T&aacute; tudo bem&hellip;, precipitou-se em dizer o tio Juju.<\/p>\n<p>O olhar dos adultos conduziu o caminho do pesco&ccedil;o de Luciano para uma televis&atilde;o de tubo em que um carro, um muito diferente daquele que via no caminho da escola, jazia im&oacute;vel entre destro&ccedil;os, fuma&ccedil;a e peda&ccedil;os met&aacute;licos. Fitou de volta os respons&aacute;veis, que desataram a falar em uma algazarra de fim de mundo. Levantaram-se de suas posi&ccedil;&otilde;es e partiram para a cozinha deixando o pequeno entre sof&aacute;, tape&ccedil;aria e televis&atilde;o. Os primeiros sinais de uma vida de enxaquecas tiniram. &ldquo;Teria a mancha aumentado de tamanho?&rdquo;.<\/p>\n<p>Sabe-se l&aacute; quanto tempo passou naquele instante do domingo; para a crian&ccedil;a piscou como a eternidade.<\/p>\n<p>&ndash; Mam&atilde;e, para onde foi o Ayrton Senna?<\/p>\n<p>&ndash; Foi encontrar a vov&oacute;.<\/p>\n<p>&ndash; E para onde foi a vov&oacute; mesmo?<\/p>\n<p>&ndash; Ela est&aacute; numa fazenda muito grande, para onde v&atilde;o todos os cachorros. Ela fica cuidando dos cachorros l&aacute;.<\/p>\n<p>&ndash; Parece legal&#8230;<\/p>\n<p>Luciano concordou com a cabe&ccedil;a e um sorriso se esfor&ccedil;ou em contrair as ma&ccedil;&atilde;s (&ldquo;ma&ccedil;&atilde;s?&rdquo;) dos rostos (&ldquo;dos rostos?&rdquo;) de m&atilde;e e filho.<\/p>\n<p>&ndash; Mas na tev&ecirc; disseram que o Ayrton Senna morreu.<\/p>\n<p>A parte do c&eacute;rebro respons&aacute;vel pela mem&oacute;ria do garoto n&atilde;o tinha desenvolvido a capacidade total de reter mem&oacute;rias e ele n&atilde;o tinha a lembran&ccedil;a de um momento com sua av&oacute;, embora a aus&ecirc;ncia da progenitora de sua m&atilde;e nos &uacute;ltimos dois meses ardia feito fogueira de lambidas capazes de provocar a extin&ccedil;&atilde;o de todos os bonequinhos de chumbo do mundo, de uma vez s&oacute;. O esgar no rosto de Lucia traduziu n&atilde;o a finitude da vida, mas o infinito da perman&ecirc;ncia. Para ele, n&atilde;o s&atilde;o a mesma coisa, uma vez que o fim de sua av&oacute; demorou tr&ecirc;s anos de sua vida e o infinito de sua falta, reconheceu, media o inconceb&iacute;vel. O menino derreteu, feito manteiga espalhada num peda&ccedil;o de p&atilde;o quente na chapa; e sentiu a mordida; os dentes trituravam farelos em v&atilde;o; a l&iacute;ngua desconhecia o gosto de algo que fora e n&atilde;o &eacute; mais; as pupilas contra&iacute;am por n&atilde;o identificar o amarelo brilhoso. Retrocedia em destino, do p&atilde;o ao trigo, da manteiga ao bezerro. Luciano passou a questionar a capacidade el&aacute;stica de um chiclete, pois sentia-se um PLOC! sabor tutti-frutti esticado da sua casa at&eacute; a de sua av&oacute;: a maior dist&acirc;ncia conhecida. O chiclete se rompera quando disseram que ao morrer viramos estrela e, logo em seguida, aprendera ser imposs&iacute;vel chegar perto de uma. Luciano desenvolveu raiva das profundezas do espa&ccedil;o sideral. &ldquo;Existe vida em Marte? Ou &eacute; um planeta natimorto, como sua irm&atilde;zinha?&rdquo;. E chorou ao assistir ao filme &ldquo;Rei Le&atilde;o&rdquo;. &rdquo;Por que o Mufasa tem que ir pro c&eacute;u e falar com o Simba como nuvem e minha av&oacute; n&atilde;o conversa comigo?&rdquo;<\/p>\n<p>Passou a duvidar de adultos e a acreditar em fantasmas. Descobriu a mentira e a inevitabilidade do sumi&ccedil;o de tudo e todos. Pela imin&ecirc;ncia da desapari&ccedil;&atilde;o sorrateira, cada abra&ccedil;o ganhou contornos de despedida. Internalizou que n&atilde;o iria se indispor com ningu&eacute;m, porque &ldquo;vai que nunca mais vejo essa pessoa?&rdquo;. E, assim, descosturou a vida pelo negativo, pela certeira dor da perda.<\/p>\n<p>&ndash; Como a vov&oacute; morreu?<\/p>\n<p>&ndash; O cora&ccedil;&atilde;o da vov&oacute; cresceu tanto que o m&eacute;dico errou na hora de dar uma inje&ccedil;&atilde;o nela.<\/p>\n<p>Nutriria uma rela&ccedil;&atilde;o com assuntos afiados; desde a tend&ecirc;ncia a cultivar tri&acirc;ngulos amorosos at&eacute; se impressionar com trigonometria; a se esconder em festinhas no momento de estourar bal&otilde;es com um palito de dente ou a evitar m&eacute;dicos com narizes aduncos.<\/p>\n<p>&ndash; Cresceu de tanto amor?<\/p>\n<p>&ndash; Um bichinho do barbeiro picou ela.<\/p>\n<p>O menino encarou os adultos ao redor. Av&ocirc; e pai carregavam, sob os narizes, um escov&atilde;o cada em que as cerdas limpavam migalhas da boca; mas nenhum sinal de barba. Apressou-se para admirar o porta-retrato adormecido na escrivaninha: a fotografia: sua av&oacute; apertava um beb&ecirc; enfiado em um macac&atilde;o com estampas de planetas e estrelas. Os dois: no sof&aacute; marrom-terra-arrasada de vegeta&ccedil;&atilde;o sem borboleta, sorriam.<\/p>\n<p>&ndash; Ela j&aacute; estava bem fraquinha e ainda assim erguia voc&ecirc; como se fosse um trof&eacute;u.<\/p>\n<p>O telejornal, dedicado a relembrar os p&oacute;dios de Ayrton Senna e mostrar um pa&iacute;s em prantos, exibiu um segmento sobre economia.<\/p>\n<p>&ndash; Existe um plano real, pai?<\/p>\n<p>Luciano culparia Ayrton Senna por apresentar o amargor da curva da mem&oacute;ria; e morreria de Alzheimer.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Rabic&oacute; e o breu<\/strong><\/p>\n<p>Janaina Perotto<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu ajudava a nonna com a lou&ccedil;a quando escutei a cachorrada. Pela janela da cozinha, vi que um homem roli&ccedil;o se aproximava da casa. Andava vagaroso, os passos dilatados pelo sol do in&iacute;cio da tarde e pelo volume que carregava debaixo do bra&ccedil;o. Vi que era o Dominguinhos Zonta, dono da bodega atr&aacute;s da igreja, onde os homens do distrito tomavam o trago depois da missa enquanto as mulheres esperavam no adro, entrecortando conversas sobre doen&ccedil;as e receitas com gritos para que n&oacute;s, crian&ccedil;as, n&atilde;o suj&aacute;ssemos a roupa de domingo na estradinha de terra.<\/p>\n<p>Espremendo os olhos, ainda com o pano de prato nas m&atilde;os, me aproximei do peitoril. Minha curiosidade contagiou a nonna e logo &eacute;ramos duas com o nariz grudado na tela contra insetos.<\/p>\n<p>&mdash; O que &eacute; que ele traz, o Zonta? &mdash; minha av&oacute; perguntou, certa de que eu enxergava melhor.<\/p>\n<p>Pertinho da casa, o bodegueiro acenou com o bra&ccedil;o que estava livre.<\/p>\n<p>&mdash; Taaarde!<\/p>\n<p>O peso que segurava junto ao corpo se agitou. Cinzenta, e roli&ccedil;a como o Zonta, a criatura se manifestou com um ronco juvenil.<\/p>\n<p>&mdash; &Eacute; um porquinho!<\/p>\n<p>O assunto n&atilde;o era com a gente, porque o Zonta e seu companheiro passaram pela casa e sumiram em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; serraria do nonno, descendo pela clareira atr&aacute;s dos galinheiros. Eu fiquei ali, ainda alguns segundos, n&atilde;o porque o bicho me causasse espanto. Tendo a ro&ccedil;a como geografia familiar, eu estava acostumada com animais. Mas &eacute; que os porcos n&atilde;o faziam parte da nossa lida. Segundo meus av&oacute;s, davam muito trabalho: antes e depois.<\/p>\n<p>&mdash; Posso ir l&aacute; ver?<\/p>\n<p>A nonna disse que n&atilde;o, que fazia muito calor e que havia risco de cobras naquele hor&aacute;rio. Al&eacute;m do mais, ela completou, dever&iacute;amos terminar o servi&ccedil;o da cozinha e crian&ccedil;a n&atilde;o tinha nada que atrapalhar conversa de adulto.<\/p>\n<p>Depois de um intervalo daqueles onde nada acontece, quando a lou&ccedil;a j&aacute; repousava nas prateleiras e o som da m&aacute;quina de costura se misturava ao zumbido das moscas, eu esperava na varanda, alisando o gato esparramado sobre o piso de ard&oacute;sia. Levantei quando avistei o Zonta subindo a clareira, equilibrando uma roda de carro&ccedil;a de feitio conhecido.<\/p>\n<p>&mdash; Cad&ecirc; o leit&atilde;o?<\/p>\n<p>Ele deu uma risada, refletindo o sol no canino de ouro. Suado, apoiou na roda com uma das m&atilde;os, levando a outra &agrave; lateral da pan&ccedil;a.<\/p>\n<p>&mdash; Ficou pra voc&ecirc;s, ora. A menina n&atilde;o me arruma um copo d&rsquo;&aacute;gua?<\/p>\n<p>Meu av&ocirc; subiu para casa no final do dia. Ouviu um tanto de reclama&ccedil;&otilde;es em dialeto e eu entendi que o problema era o porco. Ainda que ele respondesse em portugu&ecirc;s, entender o nonno n&atilde;o era coisa trivial. Sem que nenhum adulto me explicasse o motivo de sua pouca interlocu&ccedil;&atilde;o, conclu&iacute; que, de tanto conviver com bichos e ferramentas, as palavras dos homens j&aacute; n&atilde;o faziam muito sentido para ele. De todo modo, encerrada a troca de farpas e a sopa de galinha, ficou decidido que o porco dormiria no sereno, preso por uma corda amarrada a uma estaca, at&eacute; que improvisassem um cercadinho coberto.<\/p>\n<p>As f&eacute;rias chegavam ao fim e eu logo retornaria para a cidade. Quando me despedi dos meus av&oacute;s, o porco j&aacute; tinha o seu chiqueiro, que n&atilde;o me pareceu muito diferente do abrigo das galinhas, feito com sobras de madeira, t&aacute;buas irregulares e telhas lascadas. Tinha tamb&eacute;m um nome, Rabic&oacute;, dado por mim e que ningu&eacute;m adotou, porque certos bichos n&atilde;o precisavam de nome, foi o que me disseram. &Eacute; assim que o final da inf&acirc;ncia come&ccedil;a, quando os adultos se esquecem de nos dissimular a realidade, ou quando nos ensinam a ver as horas, oferecendo a ilus&atilde;o do controle sobre o tempo, com um conjunto de subdivis&otilde;es abstratas, nas quais devemos acreditar. Mas o Rabic&oacute; veio um pouco antes disso, e me pareceu eterno o per&iacute;odo que esperei at&eacute; voltarmos &agrave; ro&ccedil;a, na Semana Santa.<\/p>\n<p>&mdash; Cad&ecirc; ele? &mdash; quis saber, assim que cheguei.<\/p>\n<p>&mdash; T&aacute; quase no ponto.<\/p>\n<p>&mdash; No ponto pra qu&ecirc;?<\/p>\n<p>N&atilde;o ser&aacute; verdade se eu disser que me assustei com a resposta. Nomear o porco foi apenas uma tentativa pueril de mudar o futuro. J&aacute; havia perdido conta das vezes em que vira a nonna torcendo o pesco&ccedil;o das galinhas que iriam para a panela. Nunca chorei, mesmo ao me lembrar de quando eram pintinhos, e at&eacute; me divertia com os cocoric&oacute;s ralentados conforme agonizavam e se despediam da vida. Depois, eu pedia para ajudar na limpeza, sentindo o estalo rouco das penas arrancadas da pele morta.<\/p>\n<p>Disse a nonna que, de t&atilde;o pesado, o porco n&atilde;o conseguia mais andar. Em pouco menos de quarenta dias, engordou tanto que descadeirou. Confinado na casinha de madeira, comia e comia, arrastando sua exist&ecirc;ncia su&iacute;na com o traseiro no ch&atilde;o.<\/p>\n<p>&mdash; Quero ver!<\/p>\n<p>E ent&atilde;o fomos. Espiei pelas frestas entre as ripas, mas nada era n&iacute;tido. Abri a portinhola do chiqueiro e l&aacute; dentro era a pr&oacute;pria noite: Rabic&oacute; se misturava ao breu. Apenas dois pontinhos, cristalinos feito bolas de gude, devolviam o brilho da claridade s&uacute;bita. Por um instante, tive d&oacute; daquela solid&atilde;o e do seu destino, concretizado no S&aacute;bado de Aleluia.<\/p>\n<p>No sono pesado de crian&ccedil;a, n&atilde;o ouvi os berros do abate. No entanto, soube que, desde o amanhecer, meu pai, meu tio e o nonno ficaram &agrave;s voltas com preparativos e finalidades para cada parte do animal. Do alto da clareira, vi quando lavaram os metros de tripa na correnteza do rio. Para a frustra&ccedil;&atilde;o das moscas, os cortes de carne repousavam sobre a mesa do por&atilde;o, cobertos por um len&ccedil;ol de algod&atilde;o cru. No terreiro junto &agrave; casa, perto do chiqueiro onde Rabic&oacute; viveu, um tonel met&aacute;lico foi suspenso sobre a lenha. As labaredas aqueceram a banha &ndash; uma parte virou sab&atilde;o &ndash; e comemos torresmo at&eacute; o cair da tarde. Teve vinho para os adultos, suco de ma&ccedil;&atilde; para os pequenos e conta&ccedil;&atilde;o de causos que fizeram todo mundo gargalhar. De vez em quando, eu olhava para o chiqueiro. A portinhola inclinada balan&ccedil;ava ao vento, chamando aten&ccedil;&atilde;o com as batidas e a intermit&ecirc;ncia do escuro, agora vazio.<\/p>\n<p>Quando chegou o Natal, comemos a &uacute;ltima r&eacute;stia de lingui&ccedil;as. Mas foi s&oacute; no Dia de Reis que a nonna parou de reclamar do nonno, que, em vez de dinheiro, aceitou o porco do Zonta como pagamento pela roda de carro&ccedil;a.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cicatrizes<\/strong><\/p>\n<p>Raquel Iantas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto irm&atilde;os e amigos&nbsp; vizinhos brincavam de tiro ao alvo com seus estilingues, quebrando garrafas em cima do muro,&nbsp; Irina acabava de descobrir, num canto do quintal, embaixo de madeiras apodrecidas, um ninho de ratinhos brancos. Pegou um deles com cuidado, era muito pequeno, as unhas rosadas e finas faziam cosquinha na palma de sua m&atilde;o, o rabinho pelado parecia uma minhoca, olhinhos fechados. Ia procurar uma caixa de papel&atilde;o para guard&aacute;-los, quando ouviu uma voz vinda da frente da casa. Num rompante de excita&ccedil;&atilde;o, devolveu o ratinho para o ninho e correu em dire&ccedil;&atilde;o ao port&atilde;o de entrada. &Eacute; a voz da m&atilde;e, ela teve alta. Ser&aacute; que vai me deixar ficar com os ratinhos? Enquanto corre descal&ccedil;a, sente uma fisgada no arco do p&eacute; esquerdo. Chega ao port&atilde;o ofegante, n&atilde;o tem ningu&eacute;m. Confusa, v&ecirc; a rua deserta. Como assim? Ouvi a voz da m&atilde;e, tenho certeza. Desolada, senta-se no ch&atilde;o e percebe o p&eacute; machucado, sangrando, com um corte profundo. Caco de garrafa, claro. Entra na casa pulando num p&eacute; s&oacute;, pega uma camiseta velha para estancar o sangue e, mancando, vai buscar os ratinhos. Eles n&atilde;o estavam mais l&aacute;, na certa os meninos levaram. &Agrave; noite, mostra para o pai o ferimento, vai com ele &agrave; farm&aacute;cia, fazem um curativo, v&ecirc; estrelas quando colocam o merthiolate, o p&eacute; fica cor de laranja, depois &eacute; protegido com gaze e esparadrapo. No meio da noite, volta a ouvir a voz da m&atilde;e, vira-se na cama procurando o sono, o p&eacute; lateja, a voz insiste, n&atilde;o consegue dormir. A irm&atilde; deitada na cama ao lado levanta-se, ela vai atr&aacute;s. Na sala, descal&ccedil;a, de camisol&atilde;o cinza, suada e descabelada, a m&atilde;e discutia com o pai. Irina corre para os bra&ccedil;os da m&atilde;e. O&nbsp; pai vai logo avisando: Amanh&atilde; bem cedinho, ela volta pro hospital. Pulou o muro feito ladr&atilde;o. Para voltar para casa tem que ter autoriza&ccedil;&atilde;o do m&eacute;dico. Irina come&ccedil;a a chorar, queria que a m&atilde;e ficasse, mostra o p&eacute; machucado, a m&atilde;e faz carinho, mas n&atilde;o teve jeito, no dia seguinte bem cedinho, ao acordar, a m&atilde;e j&aacute; tinha ido embora. No p&eacute; esquerdo, ficou a cicatriz do dia em que a m&atilde;e fugiu do hospital. Essa rotina nunca mudou, de tempos em tempos a m&atilde;e era internada.<\/p>\n<p>Agora Irina j&aacute; estava crescida, ia sozinha visitar a m&atilde;e, precisava pegar dois &ocirc;nibus para chegar ao sanat&oacute;rio, se orgulhava de nunca ter errado o caminho. Nesse dia, foi preparada, tinha na mochila dois ma&ccedil;os de cigarros Continental, a m&atilde;e estava proibida de fumar, Irina levava os cigarros escondidos, a m&atilde;e dizia: Fumar &eacute;&nbsp; minha &uacute;nica alegria. Chega um pouco antes do hor&aacute;rio de visitas, teria que esperar. As instala&ccedil;&otilde;es do Hospital Psiqui&aacute;trico Nossa Senhora da Luz&nbsp; eram superlativas, a parte onde as visitas ficavam parecia um parque, com bancos nas sombras das &aacute;rvores, roseirais floridos, grama bem cuidada. A ala dos internos lembrava um pres&iacute;dio, janelas altas com grades de ferro, mesas e bancos de cimento. O rapaz da portaria libera a entrada, a enfermeira reconhece Irina, e vai buscar a m&atilde;e. Irina senta-se no banco de cimento &aacute;spero e &uacute;mido, observa os visitantes que aguardam os parentes internos, todos adultos com o rosto vincado, olhar perdido, cabisbaixos. Irina levanta-se, estica o corpo, respira fundo, lembra-se dos cigarros, a m&atilde;e vai ficar feliz. Avista a m&atilde;e no fundo do pavilh&atilde;o, que vem devagar arrastando os p&eacute;s, o corpo curvado, acompanhada pela enfermeira. A filha vai ao encontro da m&atilde;e. Hoje ela est&aacute; tranquila, voc&ecirc;s podem conversar no jardim.&nbsp; Irina sente um al&iacute;vio. Que bom, m&atilde;e, vamos poder ficar no jardim, as roseiras est&atilde;o floridas, t&ecirc;m rosas de todas as cores. A m&atilde;e ergue a cabe&ccedil;a, olha nos olhos de Irina e sorri, um sorriso triste, os dentes falsos, a m&atilde;e usa dentadura. Irina busca a m&atilde;o da m&atilde;e, segura firme, as duas seguem lentas, caladas, em dire&ccedil;&atilde;o ao jardim do hospital. Escolhem um banco afastado dos outros visitantes. Ao sentar, Irina percebe os calcanhares da m&atilde;e feridos, tingidos de merthiolate. M&atilde;e, o que aconteceu com os seus p&eacute;s? Bati, bati, bati muito, feito voc&ecirc; quando era crian&ccedil;a, me deitei no ch&atilde;o e bati com os p&eacute;s at&eacute; tirar sangue. Depois eles me trancaram no cub&iacute;culo por dois dias, mas a enfermeira chefe disse que eu s&oacute; ia sossegar com o eletrochoque. A m&atilde;e falava enrolado, a voz amortecida. M&atilde;e, eu trouxe o cigarro que a senhora pediu. Minha bonequinha, s&oacute; voc&ecirc; para me dar essa alegria. Me d&aacute;, vou esconder na calcinha. M&atilde;e, voc&ecirc; est&aacute; feliz? Ent&atilde;o canta, m&atilde;e, canta a m&uacute;sica da avenca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Andamento<\/strong><\/p>\n<p>Waldirene Dal Molin<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>o padr&atilde;o regular de todos os andamentos, seria o pulso de uma pessoa de bom humor, fogosa e leve, &agrave; tarde<br \/><\/em>Jos&eacute; Miguel Wisnik<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entre a porta do sobrado e a rodovi&aacute;ria, quase 9 quadras. Todas as quartas caminh&aacute;vamos ali entre as cal&ccedil;adas de grama e as casas sem muro. Eu e a Professora. Eu simplesmente amava aquele dia. A Professora morava em uma cidade vizinha e viajava meia manh&atilde; at&eacute; nossa cidade azul. A Professora e seu Gibson madeira fosca. Na cidade de c&eacute;u azul, eu, Guida e Tina viv&iacute;amos entre sorvetes e sonhos, gr&aacute;vidas de n&oacute;s mesmas. A m&uacute;sica, a Professora e o mar eram nosso &uacute;nico mundo poss&iacute;vel. A Professora chegava quase sempre no final da manh&atilde; e almo&ccedil;ava na Pens&atilde;o 12, da Sra Ruth. Um lugar um tanto apertado e triste, pr&oacute;ximo ao Hospital P&uacute;blico. N&oacute;s n&atilde;o entend&iacute;amos porque a Professora almo&ccedil;ava ali, talvez fosse pelo sorriso da Sra. Ruth com formato de gaivota vermelha. A Sra. Ruth sempre usava batom vermelho. Sempre &agrave;s quartas. Ela tamb&eacute;m era uma mulher roli&ccedil;a e divertida que costumava espalhar frases pela Pens&atilde;o. Animava os parentes e os doentes, ela dizia. Minha m&atilde;e conta que a Sra. Ruth foi uma cantora bem conhecida na regi&atilde;o dos Tranquilos. Um dia simplesmente parou, deixou um tanto de cora&ccedil;&atilde;o partido e veio para c&aacute;. Logo abriu a Pens&atilde;o 12 e nunca mais tocou ou cantou no assunto. A Sra. Ruth era a nossa personagem favorita das hist&oacute;rias da minha m&atilde;e. Nossas aulas de viol&atilde;o com a Professora aconteciam no sobrado antigo e laranja constru&iacute;do muito antes de tudo. Eu n&atilde;o sabia exatamente onde era esse antes ou esse tudo. Mas a minha av&oacute; sabia. O sobrado ficava na Rua da Ladeira, com a melhor vista para o camale&atilde;o do c&eacute;u. E era ali, sobre um ch&atilde;o de tacos e risos soltos que constru&iacute;amos nossos mundos laterais para nos salvar de Freud.&nbsp; Sem dias conectados eu descendia de uma longa linhagem de piscianas.&nbsp; Eu, minha m&atilde;e, minha av&oacute;, minha bisav&oacute;, todas com sol em drama, devotas da Santa Sensibilidade Difusa e vivendo a nossa &uacute;ltima encarna&ccedil;&atilde;o. Da&iacute; a minha dificuldade com a parte racional da m&uacute;sica e da vida. Guida e Tina eram os meus sapatos da raz&atilde;o e meu sentimento era que de sem elas meus p&eacute;s virariam asas. Anos mais tarde descobri que eram exatamente as minhas asas que elas buscavam.&nbsp; A Professora apareceu na nossa vida por acaso. Foi no primeiro s&aacute;bado das f&eacute;rias de ver&atilde;o quando fomos at&eacute; a Pens&atilde;o 12 comprar sorvetes. Era uma daquelas tardes de pausa na tristeza do mundo, sabe?&nbsp; Quando o c&eacute;u costuma ficar lil&aacute;s. A Sra. Ruth cantarolava bem baixinho limpando as mesas de toalha pl&aacute;stica com &aacute;lcool. A Sra. canta bonito, disse a Tina. A gente adora m&uacute;sica, acrescentou Guida. Eu queria saber tocar viol&atilde;o, falei meio que pra n&atilde;o ficar de fora da conversa, sem muita certeza desse meu querer. A Sra. Ruth ent&atilde;o puxou uma cadeira pra pertinho da gente e sentou-se com um sorriso como se a vida lhe tivesse devolvido 20 anos. Por um instante cheguei a pensar que ela era outra pessoa. Quando ela soltou todo aquele ar preso no peito, fazendo at&eacute; barulho, disse: Viol&atilde;o &eacute;? Pois olha meninas, eu conhe&ccedil;o uma pessoa que mora em Serrinha e que anda precisando de trabalho. &Eacute; um pouco longe, mas a minha aposta &eacute; que ela adoraria ensinar voc&ecirc;s. Que tal? Assim nasceu a Professora e a nossa &uacute;ltima hist&oacute;ria antes da tempestade de areia &ndash; a vida adulta &#8211; nos levar pra bem longe da cidade azul.&nbsp; A primeira aula abriu um espa&ccedil;o no meu cora&ccedil;&atilde;o que eu nunca mais deixei ocupar. Foi sobre o sil&ecirc;ncio. H&aacute; sempre som dentro do sil&ecirc;ncio. Exercitem esse paradoxo. Busquem o sil&ecirc;ncio para ouvir a urg&ecirc;ncia dos seus agudos. O sangue, o cora&ccedil;&atilde;o, somos em tudo, m&uacute;sica. Ela era o nosso John Cage ali, em carne e osso. Na medida em que fomos evoluindo e ganhando confian&ccedil;a, a Professora nos incentivou a escolher uma m&uacute;sica para apresentar aos nossos familiares e amigas, no final de ano. Mas precisa ensaiar de verdade, de cora&ccedil;&atilde;o, ela nos alertou, sen&atilde;o vira s&oacute; mais um cl&aacute;ssico bate cart&atilde;o das aulas extracurriculares. E a gente n&atilde;o quer isso, n&atilde;o &eacute; mesmo meninas? &Eacute; claro que aquilo passou a ser a nossa raz&atilde;o de exist&ecirc;ncia e muito rapidamente nos tornamos As Insuport&aacute;veis com assunto &uacute;nico, segundo a minha av&oacute;. O primeiro problema a vencer foi a escolha da m&uacute;sica. N&oacute;s brigamos tanto que quase desistimos. A&iacute; com a ajuda da Professora decidimos pensar em quest&otilde;es mais f&aacute;ceis para nos ajudar a seguir, como a escolha do lugar. E assim foi que a Tina teve a ideia de nos apresentarmos na missa de domingo. A gente achou legal, embora a minha fam&iacute;lia nunca frequentasse a igreja. A gente era sem religi&atilde;o, dizia minha m&atilde;e. Escolhido o lugar, voltaram as novas confus&otilde;es sobre a m&uacute;sica. Um dia a Guida apareceu com a sugest&atilde;o de &ldquo;Gospel&rdquo; do Rauzito. Sim, &eacute;ramos todas f&atilde;s do Raul. Agitadinha e cheia de porqu&ecirc;s, a m&uacute;sica era a nossa cara. Depois a gente entendeu que a ideia n&atilde;o veio mesmo da Guida, mas de um tio dela que era o maluco beleza da cidade, um verdadeiro s&oacute;sia do cantor.&nbsp; Exceto por esse tio e pela Professora, n&atilde;o contamos para ningu&eacute;m qual seria a m&uacute;sica da apresenta&ccedil;&atilde;o. Nem mesmo para o Padre L&aacute;zaro, que ficou muito animado com o nosso pedido. Veio ent&atilde;o o grande dia e a Igreja cheia, para alegria do Padre. Missa realizada, nos colocamos a postos pr&oacute;ximas do altar e demos in&iacute;cio a performance. Eu estava t&atilde;o animada tocando viol&atilde;o enquanto a Guida e a Tina cantavam e batiam palmas no melhor estilo coral americano, at&eacute; que decidi dar uma olhadela ao redor. O primeiro que vi foi um muro de bra&ccedil;os cruzados vazado por algumas cabe&ccedil;as amarradas na indigna&ccedil;&atilde;o. O Padre e a m&atilde;e da Tina lideravam a muralha. Ent&atilde;o corri os olhos &agrave; procura de algum afeto, quando ent&atilde;o me deparei com a Sra. Ruth e a Professora. Nesse momento a passagem da m&uacute;sica era exatamente &ldquo;Por que que eu passo a vida inteira com medo de morrer? Por que que os sonhos foram feitos pra gente n&atilde;o viver? Por que que a sala fica sempre arrumada se ela passa o dia inteiro fechada? Por que tenho caneta e n&atilde;o consigo escrever? (escrever)&rdquo;. Eram duas est&aacute;tuas. Duas est&aacute;tuas que choravam. Duas mulheres no efeito carne viva causado pela faca de uma letra, foi o que pensei muito mais tarde. Fiquei t&atilde;o desconcertada que me perdi no viol&atilde;o.&nbsp; Fui salva pelas meninas, que al&eacute;m de ultra ensaiadas seguiam alienadas na coreografia da dancinha, e pelo olhar da minha m&atilde;e, l&aacute; do canto da Igreja, como que dizendo: volta pro corpo querida, pro corpo do viol&atilde;o.&nbsp; Agora aqui neste caf&eacute;, exatos 28 anos daquele dia, vejo a gar&ccedil;onete a limpar a mesa pr&oacute;xima. Ela cantarola baixinho. N&atilde;o &eacute; tarde de c&eacute;u lil&aacute;s e tudo aqui &eacute; ru&iacute;do. Fecho os olhos para exercitar o meu sil&ecirc;ncio e quem sabe ouvir as minhas urg&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pinicando <\/strong><\/p>\n<p>Ana Luiza Nascimento<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A campainha tocou e Bela correu em dire&ccedil;&atilde;o a porta, atropelando as pernas da empregada. Esticou-se toda para alcan&ccedil;ar o trinco da porta, que se abriu para sua alegria.<\/p>\n<p>&ldquo;Bela, minha linda, sua m&atilde;e est&aacute; em casa?&rdquo;, perguntou uma senhora.<\/p>\n<p>A menina deu meia volta sem responder, esbarrando em cheio nas pernas da empregada que vinha logo atr&aacute;s dela. Desvencilhou-se delas e foi correndo pelo corredor.<\/p>\n<p>&ldquo;Mam&atilde;e, mam&atilde;e, voc&ecirc; tem visita,&rdquo; anunciou sorridente.<\/p>\n<p>&ldquo;&Eacute; a revendedora da Avon, quer conversar com a senhora,&rdquo; disse a empregada.<\/p>\n<p>&ldquo;Deus me livre, essa mulher parece que cria ra&iacute;zes cada vez que visita algu&eacute;m. Diga que voc&ecirc; se enganou, que eu j&aacute; sa&iacute;.&rdquo; Enquanto a empregada ia dar conta do recado, a menina retorcia as m&atilde;os, nervosa, os olhos azuis marejando.<\/p>\n<p>&ldquo;Que foi, Bela?&rdquo;<\/p>\n<p>Sem responder, ela se atirou contra as pernas da m&atilde;e, abra&ccedil;ando-as com toda sua for&ccedil;a.<\/p>\n<p>&ldquo;Voc&ecirc; vai pro infeno, mam&atilde;e, vai ad&ecirc; no fogo do infeno.&rdquo;<\/p>\n<p>&ldquo;Que hist&oacute;ria &eacute; essa, meu amor?&rdquo;, disse a m&atilde;e, se abaixando para abra&ccedil;ar a filha, com todo o cuidado, para n&atilde;o perder o equil&iacute;brio.<\/p>\n<p>&ldquo;Voc&ecirc; mentiu, mam&atilde;e.&rdquo; Silvia conteve a risada e abra&ccedil;ou a filha.<\/p>\n<p>&ldquo;N&atilde;o, minha querida, mentira social Deus perdoa. Fique tranquila. E agora, vamos terminar de arrumar voc&ecirc; para o nosso ch&aacute;.&rdquo; Sentou a menina numa banqueta e come&ccedil;ou a colocar as meias brancas e curtas nos seus p&eacute;s.<\/p>\n<p>&ldquo;O vestido pinica, mam&atilde;e,&rdquo; disse, fazendo um muxoxo. A m&atilde;e sorriu: &ldquo;E as minhas meias esquentam, as ligas apertam, a cinta me deixa sem ar e o suti&atilde; sem f&ocirc;lego. Mas n&atilde;o estou bonita?&rdquo;.<\/p>\n<p>&ldquo;Linda, mam&atilde;e, linda.&rdquo;<\/p>\n<p>&ldquo;E voc&ecirc; tamb&eacute;m, assim que substituir essa carinha de o-vestido-pinica por uma de como-sou-bonita&rdquo;. As duas sorriram enquanto a m&atilde;e terminava de cal&ccedil;ar os sapatos e as luvas na menina, finalizando com o toque do chap&eacute;u de rafia.<\/p>\n<p>&ldquo;Fiquei bonita?&rdquo; Bela se esfor&ccedil;ou para manter seu melhor sorriso embora todo seu corpo pinicasse agora.<\/p>\n<p>&ldquo;Linda, minha pequena.&rdquo;<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Receita de brigadeiro<\/strong><\/p>\n<p>Renata Cor&eacute;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bianca subiu o mais r&aacute;pido que p&ocirc;de a ladeira de acesso &agrave; vila de seis casas, a cal&ccedil;a de brim azul marinho do uniforme escolar segurando um pouco a pressa das pernas, a mochila rosa de borracha golpeando as costas. Tocou a campainha da terceira casa e, pelo vidro canelado da porta de ferro, viu quando a senhora baixinha, cabelos curtos e ondulados pintados de castanho escuro, terminando de secar as m&atilde;os na blusa de algod&atilde;o florida, veio atender, trazendo com ela o cheiro do doce sendo preparado.<\/p>\n<p>&ndash; Voc&ecirc;s deixaram lata de leite condensado pra eu raspar? Eu quero! &ndash; a voz quase n&atilde;o saiu.<\/p>\n<p>&ndash; Depois que tomar banho e almo&ccedil;ar &ndash; a av&oacute; respondeu &ndash; E sua m&atilde;e disse que &eacute; pra fazer a li&ccedil;&atilde;o de casa! &ndash; gritou para a menina que j&aacute; passava para o banheiro, enquanto ela, Dona Juracy, voltava a se ocupar da panela no fogo evitando que o doce queimasse.<\/p>\n<p>Aquela panela grande, curtida, de alum&iacute;nio, s&oacute; sa&iacute;a da despensa da casa de Bianca em duas ocasi&otilde;es: nos finais de ano, para fritar bolinhos de bacalhau e rabanadas, e nas proximidades dos anivers&aacute;rios dela e de Daniel, para cozinhar beijinho de coco e brigadeiro &ndash; sem d&uacute;vida nenhuma o favorito dos dois irm&atilde;os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&ndash; Eu enrolo as bolinhas, voc&ecirc;s v&atilde;o passando no granulado &ndash; disse Dona Juracy, colocando sobre a mesa da cozinha o pirex oval cheio da massa de brigadeiro. Um de cada lado da mesa, Bianca e Daniel j&aacute; tinham providenciado a montanha de forminhas abertas, reunidas em um Tupperware redondo. Sempre tarefa deles, assim como separar os celofanes, azuis desta vez. N&atilde;o gostavam dessas atribui&ccedil;&otilde;es, s&oacute; serviam para fazer demorar o in&iacute;cio da parte boa: melar os dedos com o doce.<\/p>\n<p>A av&oacute; untou as palmas das m&atilde;os com manteiga. Com uma colher de ch&aacute;, p&ocirc;s-se a retirar bocados da massa para modelar as bolinhas marrons. A primeira esfera macia caiu sobre o prato espalhando levemente a superf&iacute;cie de granulado. Bianca estendeu o indicador direito e, com a ponta do dedo, fez a bolinha dar voltas, cobrindo-a com o confeito.<\/p>\n<p>&ndash; V&oacute;, sabe o que aprendi hoje na escola?<\/p>\n<p>&ndash; O qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&ndash; Que a Terra gira em torno dela mesma!<\/p>\n<p>&ndash; &Eacute; mesmo?<\/p>\n<p>&ndash; &Eacute; sim!<\/p>\n<p>Dona Juracy deixou cair a segunda bolinha no prato, e Daniel repetiu o gesto da irm&atilde;.<\/p>\n<p>&ndash; Est&aacute; vendo, Daniel, que coisa boa &eacute; ir pra escola? Daqui a pouco voc&ecirc; tamb&eacute;m vai come&ccedil;ar a estudar isso, e vai ficar cada vez mais inteligente. O menino sorriu.<\/p>\n<p>&ndash; V&oacute;, posso comer esse aqui? &ndash; perguntou, mostrando o brigadeiro que havia acabado de cobrir de granulado.<\/p>\n<p>&ndash; N&atilde;o, meu filho, ainda n&atilde;o. Ainda estamos come&ccedil;ando. Bota no celofane e na forminha, t&aacute; bom?<\/p>\n<p>&ndash; V&oacute;, sabe o que mais eu aprendi?<\/p>\n<p>&ndash; O qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&ndash; A Terra leva um dia pra dar uma volta completa em torno dela mesma!<\/p>\n<p>&ndash; Nossa, &eacute; mesmo? Um dia inteiro?<\/p>\n<p>Dona Juracy soltou mais um brigadeiro no prato de granulado.<\/p>\n<p>&ndash; &Eacute; sim!<\/p>\n<p>Novamente, Bianca fez a bolinha correr at&eacute; que ficasse totalmente coberta pelo confeito, e continuou girando-a pelo prato.<\/p>\n<p>&ndash; Bianca, por que voc&ecirc; ainda est&aacute; passando esse brigadeiro no granulado? Ele j&aacute; est&aacute; mais do que bom.<\/p>\n<p>&ndash; &Eacute; porque nesse planeta Brigadeiro o dia dura pra sempre &ndash; divertiu-se.<\/p>\n<p>&ndash; Arruma ele logo no celofane e na forminha. Os doces v&atilde;o grudar se come&ccedil;arem a acumular no prato &ndash; disse a av&oacute;, deixando cair mais uma bolinha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em pouco mais de meia hora o primeiro tabuleiro j&aacute; estava quase completo. Bianca olhou para aquele Sistema Solar feito de brigadeiros cobertos de granulado, acomodados em celofanes e forminhas azuis. Os doces tinham tamanhos irregulares. Uns sa&iacute;am mais mi&uacute;dos, outros sa&iacute;am mais grand&otilde;es. Ela gostava de esconder os maiores.<\/p>\n<p>&ndash; V&oacute;, os seus brigadeiros s&atilde;o os mais bonitos que eu j&aacute; vi.<\/p>\n<p>&ndash; Que bom, minha filha. Fa&ccedil;o com muito gosto.<\/p>\n<p>&ndash; Nas festinhas dos meus amigos, nunca vi mais bonitos que os da senhora.<\/p>\n<p>&ndash; Nem mais gostosos, v&oacute;! Posso comer mais um?<\/p>\n<p>&ndash; Se comer muitos hoje, no dia da sua festa quase n&atilde;o vai ter pra arrumar na mesa, Daniel. Voc&ecirc; quer que a mesa apare&ccedil;a vazia nas fotos?<\/p>\n<p>&ndash; N&atilde;o tem problema, &eacute; s&oacute; espalhar bastante &ndash; o garoto gargalhou.<\/p>\n<p>&ndash; V&oacute;, por que em vez de ir buscar calcinha e suti&atilde; l&aacute; em Friburgo pra vender a senhora n&atilde;o vende brigadeiro?<\/p>\n<p>&ndash; Sabia que eu paguei o casamento da sua tia vendendo calcinha e suti&atilde;, Bianca?<\/p>\n<p>&ndash; Com brigadeiro n&atilde;o d&aacute;? &ndash; quis saber o menino.<\/p>\n<p>&ndash; O brigadeiro &eacute; pro anivers&aacute;rio de voc&ecirc;s.<\/p>\n<p>&ndash; Quando eu for grande, a senhora vai me ensinar a fazer o seu brigadeiro?<\/p>\n<p>&ndash; Vou sim, minha filha.<\/p>\n<p>&ndash; Ent&atilde;o eu &eacute; que vou fazer pro anivers&aacute;rio da senhora!<\/p>\n<p>&ndash; Ei, eu tamb&eacute;m! &ndash; Daniel se apressou em dizer.<\/p>\n<p>&ndash; E vou fazer pra sempre!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitos anos depois de ter ficado grande, Dona Juracy j&aacute; n&atilde;o estava mais por aqui, Bianca ganhou da tia uma encaderna&ccedil;&atilde;o que reproduzia o caderno de receitas da av&oacute;. A de brigadeiro tamb&eacute;m estava l&aacute;, claro, mas fazia muito tempo que ela sabia de cor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1 lata de leite condensado<\/p>\n<p><em>(Minha av&oacute; usava leite Mo&ccedil;a, ent&atilde;o &eacute; leite Mo&ccedil;a.)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3 colheres de sopa de achocolatado em p&oacute;<\/p>\n<p><em>(O Nescau est&aacute; pela hora da morte, mas que jeito?)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3 colheres de sopa de manteiga<\/p>\n<p><em>(Manteiga eu tenho em casa.)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cozinhar em fogo m&eacute;dio, mexendo sem parar at&eacute; come&ccedil;ar a desgrudar do fundo da panela. Transferir para um prato e deixar esfriar antes de modelar as bolinhas e cobrir com granulado.<\/p>\n<p><em>(Bom &eacute; granulado mesmo, desses ordin&aacute;rios que a gente encontra em qualquer padaria. Nada desse neg&oacute;cio de chocolate importado que s&oacute; vende em casa especializada.)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E at&eacute; hoje &eacute; assim que Bianca prepara brigadeiro. Mesmo sem nunca mais ter encontrado um dos ingredientes da inf&acirc;ncia: a ingenuidade de acreditar que o mundo seria para sempre um lugar doce.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O beijo<\/strong><\/p>\n<p>Samira Murad<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todo dia, assim que a campainha estridente bate a hora do recreio, o menino dirige-se ao p&aacute;tio, onde invariavelmente encontra, primeiro, o amigo e depois a irm&atilde; que, na hora do segundo sinal, vem lhe dar um beijo, como um p&atilde;o cotidiano, antes que todos retornem &agrave;s salas de aula, em prociss&atilde;o solene.<\/p>\n<p>Sentados num dos bancos de cimento queimado em torno do pequeno jardim, centro nervoso do p&aacute;tio, o menino e o amigo tomam o lanche. Para o amigo, lanchinhos variados, dependendo do dia; para o menino, sempre a mesma fatia de queijo prato enrolada numa folha de p&atilde;o &aacute;rabe, acompanhada de ch&aacute;. Enquanto comem, os meninos observam, com olho de pesquisador, as sa&uacute;vas que, ocupadas, sobem e descem o tronco liso da jabuticabeira, enquanto, &agrave; volta deles, as crian&ccedil;as correm, gritam, brincam, se divertem.<\/p>\n<p>Terminada a refei&ccedil;&atilde;o, o menino e o amigo levantam-se para dar, com precis&atilde;o de rel&oacute;gio su&iacute;&ccedil;o e m&atilde;os cruzadas nas costas, tr&ecirc;s voltas completas ao p&aacute;tio. Conforme andam, em passo lento, discutem os mais recentes document&aacute;rios cient&iacute;ficos que haviam assistido na Filmoteca Global. O percurso termina em frente &agrave;s grades localizadas acima da quadra esportiva do col&eacute;gio, onde o menino e o amigo observam as crian&ccedil;as que, ocupadas, correm para cima e para baixo, percorrendo a extens&atilde;o da quadra.<\/p>\n<p>Quando o sinal toca, o amigo vira-se para o menino, estende a m&atilde;o e encaminha-se para a fila. O menino permanece, cronometrando &ndash; um, dois, tr&ecirc;s, quatro, cinco &ndash; a chegada da irm&atilde;. &nbsp;<\/p>\n<p>Naquele dia, o menino &ndash; sessenta, sessenta e um, sessenta e dois &#8211; nota que a gritaria das crian&ccedil;as diminui, como onda que se afasta da praia, conforme as filas se formam &ndash; oitenta e tr&ecirc;s, oitenta e quatro, oitenta e cinco &ndash; e deslizam pelos corredores &ndash; cento e oito, cento e nove, cento e dez. O menino permanece cravado em seu lugar &ndash; cento e trinta e um, centro e trinta e dois, cento e trinta e tr&ecirc;s &ndash; at&eacute; n&atilde;o haver mais ningu&eacute;m no p&aacute;tio. Um suor frio escorre por suas costas e &ndash; cento e cinquenta, cento e cinquenta e um, cento e cinquenta e dois &#8211; l&aacute;grimas rolam por suas faces enquanto cambaleia feito b&ecirc;bado sem rumo pelo p&aacute;tio; ele n&atilde;o sabe fazer o caminho de volta &agrave; sala.&nbsp;&nbsp; De repente &#8211; cento e setenta e oito, cento e setenta e nove, cento e oitenta &#8211; o menino sente um toque leve no ombro e estremece. Era a irm&atilde; que &#8211; cento e oitenta e tr&ecirc;s! cento e oitenta e tr&ecirc;s! cento e oitenta e tr&ecirc;s! &ndash; vinha dar o beijo reparador, guiando-o de volta ao mundo.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O caminho at&eacute; a televis&atilde;o e o videocassete<br \/><\/strong>Bruno Cavalcante Pereira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se Bernardo soubesse antes a respeito da miss&atilde;o que lhe imporiam, teria faltado ao encontro do Clube do Seya, de costume, aos s&aacute;bados na casa de Teobaldo. Na verdade, era uma puni&ccedil;&atilde;o atribu&iacute;da por Teobaldo e Eliomar, mas pactuada pelos tr&ecirc;s como em um contrato. Ao inv&eacute;s de pap&eacute;is, cuspe: quem arremessasse mais longe o jato encorpado de saliva tal qual um estilingue escolheria a brincadeira; caberia ao derrotado da competi&ccedil;&atilde;o tomar provid&ecirc;ncias a fim de facilit&aacute;-la. Bernardo n&atilde;o tinha jeito com tesouras, linhas e cola; sobrou para os outros dois meninos a constru&ccedil;&atilde;o das doze casas do santu&aacute;rio, em dois andares com caixas de papel&atilde;o, como eles tinham visto no desenho animado dos Cavaleiros do Zod&iacute;aco. E naquela manh&atilde;, Bernardo precisaria cumprir o trato com a sua pr&oacute;pria curiosidade e vergonha, sem adiamentos.<\/p>\n<p>A miss&atilde;o era comprar uma revista acompanhada de fita em VHS pornogr&aacute;fica na banca, da esquina da casa de Eliomar a dois quarteir&otilde;es do quintal de Teobaldo. A senhorinha da banca n&atilde;o reconheceria Bernardo &ndash; muito menos o denunciaria aos seus pais &ndash; porque ele fora poucas vezes brincar naquelas imedia&ccedil;&otilde;es (foi o que justificou Teobaldo com entona&ccedil;&atilde;o instrutiva de um comandante de opera&ccedil;&atilde;o policial).<\/p>\n<p>Bernardo se viu flagrado pela imper&iacute;cia no espelho da puberdade: escorria suor das pernas, diante dos amigos, na impossibilidade de confessar seu desconhecimento a respeito de sexo aos onze anos de idade; Teobaldo e Eliomar, n&atilde;o. Ambos um ano mais velhos, j&aacute; pronunciavam as palavras boquete e punheta com a mesma desinibi&ccedil;&atilde;o do leque de penas aberto do pav&atilde;o azul.<\/p>\n<p>Os s&aacute;bados anteriores j&aacute; anunciavam a inten&ccedil;&atilde;o velada na prova de cuspe: m&eacute;todo abandonado h&aacute; tempos, mas resgatado por Teobaldo e Eliomar: dois votos contra um. Foram necess&aacute;rias tr&ecirc;s manh&atilde;s e tr&ecirc;s tardes para construir o santu&aacute;rio de papel&atilde;o, e enquanto montavam e colavam as pe&ccedil;as, qualquer assunto entre eles se enveredava para o sexo (&agrave; exce&ccedil;&atilde;o de Bernardo): a abertura das pernas da tesoura, a passagem da linha pela cava da agulha e a consist&ecirc;ncia da cola tenaz entre os dedos grudados dos meninos.&nbsp;Julgando-se o mais experiente do grupo, Teobaldo acreditava ser tarefa sua iniciar Bernardo nas atividades sexuais com o pr&oacute;prio corpo: precisava ir al&eacute;m das revistas de mulheres nuas, adquiridas no com&eacute;rcio informal durante o intervalo das aulas, numa sala desocupada por tr&aacute;s da cantina do col&eacute;gio.<\/p>\n<p>Sozinho e com os bolsos cheios de moedas, Bernardo atravessou o port&atilde;o da casa de Teobaldo e andou at&eacute; a banca de revistas sem encarar as pessoas nas ruas, talvez porque seu rosto anunciasse o motivo da dilig&ecirc;ncia: ser&aacute; que as cenas de sexo reproduziriam o prazer evocado nas gargalhadas de Teobaldo e Eliomar?<\/p>\n<p>As revistas e jornais pareciam uma cortina de retalhos: irregulares, diversas e cumpridoras de fun&ccedil;&atilde;o. Parado ali, Bernardo seguiu com o mesmo protocolo &ndash; andava e n&atilde;o encarava a senhorinha da banca. O sil&ecirc;ncio das m&atilde;os sobre as revistas em quadrinhos da Marvel e os olhos para cima feito um p&ecirc;ndulo esot&eacute;rico eram uma artimanha cotidiana dos garotos daquela idade, j&aacute; conhecida pela senhorinha. Ela puxou um caixote debaixo da m&aacute;quina registradora t&atilde;o r&aacute;pido quanto deveria ser a escolha de Bernardo por apenas um combo (revista e fita em VHS), entre os rec&eacute;m-chegados. Escolheu e pagou por um cuja imagem da capa lhe lembrou uma m&atilde;o que conduz um jambo-vermelho &agrave; boca.<\/p>\n<p>Da revistaria e sob a cumplicidade da senhorinha, Bernardo seguiu com uma sacola de pl&aacute;stico preta para sua casa, n&atilde;o cumprindo com a parte final do acordo com seus amigos. Resolveu que assistiria sozinho &agrave;s cenas de sexo; temia ser ele mesmo o objeto das risadas de Teobaldo e Eliomar. E era. Bernardo escondeu a revista e a fita em VHS no fundo falso da &uacute;ltima gaveta do seu guarda-roupa e dali s&oacute; sairiam na madrugada do domingo quando o caminho at&eacute; a televis&atilde;o e o videocassete se iluminasse por meio da lanterna.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Siri<\/strong><\/p>\n<p>Julia Antunes<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu gosto quando o mundo est&aacute; vermelho. &Eacute; como se eu estivesse em Marte. O papai disse que Marte &eacute; um planeta de fogo. Minha pele seria t&atilde;o grossa que eu n&atilde;o me queimaria. Ouviria barulho de milho estourando o tempo todo; eu s&oacute; comeria pipoca, tudo o que fosse verde ficaria tostado rapidinho. Tamb&eacute;m poderia assar marshmallow. O futebol com bolas de fogo, j&aacute; imagino a cara do Dudu quando a chuteira dele derretesse.<\/p>\n<p>Cansei de ficar de olhos fechados no sol. A mam&atilde;e acha que me engana usando &oacute;culos escuros para fingir que n&atilde;o est&aacute; dormindo. O livro caiu na areia faz uns minutos e ela ainda n&atilde;o pegou. Posso explorar aquelas pedras no fim da praia e ela n&atilde;o vai saber. Ontem as crian&ccedil;as da barraca do lado voltaram com um siri no balde. A al&ccedil;a do balde estourou quando elas estavam perto de mim. A &aacute;gua escorreu e o siri, quando sentiu que estava na areia, come&ccedil;ou a cavar um buraco. Fiquei na d&uacute;vida se avisava as meninas onde o fuj&atilde;o tinha se escondido, mas uma delas come&ccedil;ou a chorar e eu fiquei irritado. Quando algu&eacute;m chora, minha garganta come&ccedil;a a co&ccedil;ar, ent&atilde;o eu vou para longe. Homem n&atilde;o chora.<\/p>\n<p>No dia em que eu comecei as aulas na escola nova, o vov&ocirc; me buscou logo que acabou o recreio. Pela primeira vez ele deixou que eu escolhesse a m&uacute;sica. Eu estava t&atilde;o animado que demorei demais para me decidir e a gente chegou em casa antes de eu ouvir o final da mel&ocirc; do rato.<\/p>\n<p>O vov&ocirc; abriu a porta t&atilde;o devagar que me deu vontade de dar um chute. Joguei a mochila no ch&atilde;o e ouvi um choro. Deve ser a mam&atilde;e falando com tia Camila no celular. S&oacute; que era um barulho diferente, como um engasgo junto com tosse.&nbsp;<\/p>\n<p>&ndash; Papai?<\/p>\n<p>O papai olhou para o vov&ocirc;:<\/p>\n<p>&ndash; Oi, filho. O pai engasgou com um amendoim.<\/p>\n<p>&ndash; Parecia que voc&ecirc; estava chorando&#8230;<\/p>\n<p>&ndash; Claro que n&atilde;o, homem n&atilde;o chora.<\/p>\n<p>Demorou mais do que eu esperava para chegar nas pedras. Espero que a mam&atilde;e n&atilde;o tenha acordado. Imagina ela gritando meu nome e correndo de um lado para o outro, que vergonha. Eu uso um graveto para cutucar a areia bem perto das pedras e ver se aparece algum bicho. Fa&ccedil;o um zigue-zague, uma &oacute;tima t&eacute;cnica para descobrir a casa dos siris.<\/p>\n<p>Uma pata amarela se estica e volta a se esconder. Dou um passo para frente, achei voc&ecirc;, h&aacute;-h&aacute;. A pin&ccedil;a &eacute; mais r&aacute;pida do que o graveto e belisca meu dedo. D&oacute;i, d&oacute;i, d&oacute;i, d&oacute;i. A garganta co&ccedil;a, prendo a respira&ccedil;&atilde;o. Os olhos ficam molhados.<\/p>\n<p>&ndash; Chico, Chico&#8230; Chico, cad&ecirc; voc&ecirc;?<\/p>\n<p>A mam&atilde;e. A garganta arde. Homem n&atilde;o chora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>In memoriam<\/strong><\/p>\n<p>Christiana Ber&eacute;a de Oliveira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;Catarina remexeu-se no banco duro da igreja. Do seu lado direito, Mariana. Do esquerdo, Sonia. A ordem de sempre.<\/p>\n<p>Celina deixa, com certeza, muitas lembran&ccedil;as entre aqueles que a amaram.<\/p>\n<p>&ndash; Voc&ecirc;s se lembram do dia da briga no carro? &ndash; sussurrou Catarina para as irm&atilde;s.<\/p>\n<p>&Agrave;s quatro e trinta em ponto, a porta da sala de ballet se abriu e l&aacute; de dentro brotaram pequenos seres saltitantes, trajando collants pretos sobre meias-cal&ccedil;as cor de rosa &#8211; algumas rasgadas, outras imundas &#8211; sapatilhas, redinhas cobrindo coques desfeitos. O ambiente se encheu de vozes e gritinhos. Catarina foi a primeira a sair. De longe viu a m&atilde;e sentada em um canto com um livro entre as m&atilde;os. Ela nunca se juntava &agrave;s outras m&atilde;es, vivia calada, os olhos tristes. Ansiosa para dividir a novidade com ela, a menina correu em sua dire&ccedil;&atilde;o. Tinha certeza de que isso a deixaria orgulhosa.<\/p>\n<p>&ndash; Mam&atilde;e, voc&ecirc; n&atilde;o vai acreditar. Eu ganhei um papel na dan&ccedil;a das borboletas!<\/p>\n<p>Celina olhou por cima dos ombros da menina &agrave; procura das outras filhas.<\/p>\n<p>&ndash; Onde est&atilde;o suas irm&atilde;s?<\/p>\n<p>&ndash; Devem estar vindo. Voc&ecirc; ouviu, mam&atilde;e? A dan&ccedil;a das borboletas &eacute; do grupo intermedi&aacute;rio!<\/p>\n<p>&ndash; Estou com pressa!<\/p>\n<p>Catarina murchou por um instante.<\/p>\n<p>&ndash; Pera&iacute;, vou cham&aacute;-las. &ndash; E saiu correndo de volta para a classe. Depois explicaria melhor.<\/p>\n<p>Com o trio reunido, a m&atilde;e seguiu para o estacionamento do clube. Abriu a porta do Opala azul Dan&uacute;bio e em ordem invertida de nascimento, como sempre faziam, as meninas foram entrando no carro. Mariana &ndash; seis, Catarina &ndash; oito, Sonia &ndash; onze.<\/p>\n<p>&ndash; Posso ir no banco da frente hoje, m&atilde;e?<\/p>\n<p>&ndash; J&aacute; conversamos sobre isso, Sonia.<\/p>\n<p>&ndash; Mas todo mundo da minha classe j&aacute; est&aacute; andando no banco da frente! S&oacute; voc&ecirc; que n&atilde;o deixa!<\/p>\n<p>&ndash; Todo mundo n&atilde;o &eacute; minha filha &ndash; respondeu a m&atilde;e com a frase padr&atilde;o e fechou a porta. Sonia fechou a cara. Ah, como queria ser filha de outra pessoa.<\/p>\n<p>Antes de dar partida, Celina checou as garotas pelo espelho retrovisor.&nbsp;<\/p>\n<p>&ndash; Vamos ver se hoje conseguimos chegar em casa sem brigas, certo? Estou sem paci&ecirc;ncia, entenderam?<\/p>\n<p>&ndash; Eu t&ocirc; com fome &ndash; queixou-se Mariana na cadeirinha.<\/p>\n<p>J&aacute; com o carro em movimento, a m&atilde;e abriu a bolsa, puxou um pacote de biscoitos de chocolate e, esticando o bra&ccedil;o, entregou-o &agrave;s filhas.<\/p>\n<p>&ndash; Tomem. Mas &eacute; pra dividir, hein?<\/p>\n<p>Mariana pegou o pacote, mas Sonia o arrancou da m&atilde;o dela.<\/p>\n<p>&ndash; Deixa que eu abro.<\/p>\n<p>Catarina, sem esperar que o carro sa&iacute;sse do estacionamento, retomou o assunto que fervilhava em sua cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>&ndash; Ent&atilde;o, m&atilde;e, uma das meninas do grupo intermedi&aacute;rio vai se mudar para o Rio de Janeiro e a Cristina me escolheu para o lugar dela!<\/p>\n<p>&ndash; Vai, Sonia, me d&aacute; a bolacha &ndash; choramingou Mariana.<\/p>\n<p>&ndash; Sonia, sua irm&atilde; est&aacute; com fome.<\/p>\n<p>&ndash; T&aacute;, m&atilde;e. J&aacute; vou &ndash; respondeu a mais velha, mal-humorada.<\/p>\n<p>&ndash; O que foi que voc&ecirc; disse, Catarina? &ndash; perguntou a m&atilde;e.<\/p>\n<p>Os olhos da menina se iluminaram.<\/p>\n<p>&ndash; Ganhei um lugar na dan&ccedil;a das borboletas.<\/p>\n<p>&ndash; Rid&iacute;culo isso! &ndash; disparou Sonia. &ndash; Onde j&aacute; se viu? Voc&ecirc; ainda &eacute; do grupo b&aacute;sico. Deviam ter escolhido algu&eacute;m do avan&ccedil;ado.<\/p>\n<p>Catarina esperou uma defesa da parte da m&atilde;e, mas ela n&atilde;o veio.<\/p>\n<p>&ndash; Voc&ecirc; &eacute; burra ou o qu&ecirc;, Sonia? Essa dan&ccedil;a &eacute; muito f&aacute;cil para o grupo avan&ccedil;ado. Voc&ecirc; est&aacute; &eacute; com inveja.<\/p>\n<p>&ndash; Eu quero mais uma bolacha! M&atilde;e, a Sonia n&atilde;o est&aacute; dividindo direito!<\/p>\n<p>&ndash; Inveja de um grupo de borboleta?!<\/p>\n<p>&ndash; Me d&aacute; a bolacha &ndash; disse Mariana, esticando-se para pegar o pacote.<\/p>\n<p>&ndash; Ai! Voc&ecirc; me arranhou, sua pirralha! &ndash; gritou Sonia, puxando o cabelo da mais nova.<\/p>\n<p>&ndash; Larga ela, Sonia! &ndash; berrou Catarina, protegendo a menor.<\/p>\n<p>Em alguns minutos, j&aacute; n&atilde;o era poss&iacute;vel distinguir as vozes das meninas entre gritaria, choro, tapas e empurr&otilde;es.<\/p>\n<p>Numa freada brusca, o carro parou.<\/p>\n<p>&ndash; Des&ccedil;am.<\/p>\n<p>Sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&ndash; Des&ccedil;am.<\/p>\n<p>As tr&ecirc;s garotas entreolharam-se assustadas e miraram os olhos gelados da m&atilde;e no retrovisor.<\/p>\n<p>Mariana come&ccedil;ou a choramingar. Olhou para fora e viu um garoto passando com uma caixa de chiclete na m&atilde;o. Ser&aacute; que a m&atilde;e dele o tinha colocado para fora do carro tamb&eacute;m?<\/p>\n<p>Catarina apertou a m&atilde;ozinha rechonchuda de Mariana. Precisava acalmar a irm&atilde;zinha, ela ainda n&atilde;o entendia aquelas crises da mam&atilde;e. Aquilo n&atilde;o era nada. Precisavam s&oacute; manter a calma, costumava passar logo.<\/p>\n<p>&ndash; Mam&atilde;e, a Mari est&aacute; com medo. Vamos para casa.<\/p>\n<p>&ndash; Eu n&atilde;o estou brincando. Eu avisei, n&atilde;o avisei?<\/p>\n<p>Sonia olhou alarmada para a irm&atilde; do meio. E se dessa vez a m&atilde;e tivesse pirado de vez? O que fariam? Aquele gosto ruim que conhecia t&atilde;o bem invadiu sua boca. Gosto de desgosto. De sede de uma m&atilde;e como todas as outras.<\/p>\n<p>Os minutos passaram. Talvez tenham sido apenas segundos. Como se de dentro de uma bolha, ouviam buzinas ao longe. Catarina lembrou-se de fazer a prece do Anjo da Guarda. Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador&#8230; Mariana apertou forte o pacote de biscoitos contra o peito. Sonia fechou os olhos e colocou a m&atilde;o no trinco da porta. Talvez ficasse melhor sem ela.<\/p>\n<p>O som de partida do carro p&ocirc;s o mundo em movimento de novo. A m&atilde;e ligou o r&aacute;dio e, cantarolando, continuou o trajeto para casa.<\/p>\n<p>Deus todo-poderoso tenha compaix&atilde;o de n&oacute;s, perdoe os nossos pecados e nos conduza &agrave; vida eterna.<\/p>\n<p>&ndash; Eu quase sa&iacute; do carro naquele dia &ndash; murmurou Sonia.<\/p>\n<p>&ndash; Duvido que voc&ecirc; tivesse coragem &ndash; respondeu Mariana baixinho.<\/p>\n<p>&ndash; Ela nunca teria deixado a gente sair &ndash; disse Catarina pegando as m&atilde;os das irm&atilde;s. &ndash; Eu tenho certeza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>APRESENTA&Ccedil;&Atilde;O por Leda Cartum &nbsp; &lsquo;Viagem ao redor do texto&rsquo; foi uma oficina de escrita que durou de agosto a novembro de 2021. A ideia foi mesmo convidar o grupo a fazer uma viagem: de fora para dentro, e de dentro para fora. Da observa&ccedil;&atilde;o &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o, e vice-versa. Para isso, a cada encontro, foi [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":61,"featured_media":1301,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1037","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.2 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>VIAGEM AO REDOR DO TEXTO - UMA ANTOLOGIA - Escrevedeira<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"VIAGEM AO REDOR DO TEXTO - UMA ANTOLOGIA - Escrevedeira\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"APRESENTA&Ccedil;&Atilde;O por Leda Cartum &nbsp; &lsquo;Viagem ao redor do texto&rsquo; foi uma oficina de escrita que durou de agosto a novembro de 2021. A ideia foi mesmo convidar o grupo a fazer uma viagem: de fora para dentro, e de dentro para fora. Da observa&ccedil;&atilde;o &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o, e vice-versa. Para isso, a cada encontro, foi [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Escrevedeira\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/aescrevedeira\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2021-12-09T20:14:50+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2024-10-03T18:41:36+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/95479_503026-4a38e-600x450-1.webp\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"600\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"450\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/webp\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"V\u00e1rios Autores\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"V\u00e1rios Autores\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"88 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/\"},\"author\":{\"name\":\"V\u00e1rios Autores\",\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#\/schema\/person\/3866308d2c86aa43b404fada91cae6fb\"},\"headline\":\"VIAGEM AO REDOR DO TEXTO &#8211; UMA ANTOLOGIA\",\"datePublished\":\"2021-12-09T20:14:50+00:00\",\"dateModified\":\"2024-10-03T18:41:36+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/\"},\"wordCount\":17547,\"commentCount\":0,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#organization\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/95479_503026-4a38e-600x450-1.webp\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/\",\"url\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/\",\"name\":\"VIAGEM AO REDOR DO TEXTO - UMA ANTOLOGIA - Escrevedeira\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#website\"},\"primaryImageOfPage\":{\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#primaryimage\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/95479_503026-4a38e-600x450-1.webp\",\"datePublished\":\"2021-12-09T20:14:50+00:00\",\"dateModified\":\"2024-10-03T18:41:36+00:00\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/\"]}]},{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#primaryimage\",\"url\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/95479_503026-4a38e-600x450-1.webp\",\"contentUrl\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/95479_503026-4a38e-600x450-1.webp\",\"width\":600,\"height\":450},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"Home\",\"item\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"VIAGEM AO REDOR DO TEXTO &#8211; UMA ANTOLOGIA\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#website\",\"url\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/\",\"name\":\"Escrevedeira\",\"description\":\"\",\"publisher\":{\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#organization\"},\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Organization\",\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#organization\",\"name\":\"Escrevedeira\",\"url\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/\",\"logo\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#\/schema\/logo\/image\/\",\"url\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/symbol_escrevedeira.svg\",\"contentUrl\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/symbol_escrevedeira.svg\",\"width\":298,\"height\":98,\"caption\":\"Escrevedeira\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#\/schema\/logo\/image\/\"},\"sameAs\":[\"https:\/\/www.facebook.com\/aescrevedeira\/\",\"https:\/\/www.instagram.com\/aescrevedeira\/\"]},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#\/schema\/person\/3866308d2c86aa43b404fada91cae6fb\",\"name\":\"V\u00e1rios Autores\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/14199ae680fe119842d938fe3c74414fd8b0d6c3ef96150d80e06f7f87290f8d?s=96&d=mm&r=g\",\"url\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/14199ae680fe119842d938fe3c74414fd8b0d6c3ef96150d80e06f7f87290f8d?s=96&d=mm&r=g\",\"contentUrl\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/14199ae680fe119842d938fe3c74414fd8b0d6c3ef96150d80e06f7f87290f8d?s=96&d=mm&r=g\",\"caption\":\"V\u00e1rios Autores\"},\"url\":\"https:\/\/escrevedeira.com.br\/author\/varios-autores\/\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"VIAGEM AO REDOR DO TEXTO - UMA ANTOLOGIA - Escrevedeira","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/","og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"VIAGEM AO REDOR DO TEXTO - UMA ANTOLOGIA - Escrevedeira","og_description":"APRESENTA&Ccedil;&Atilde;O por Leda Cartum &nbsp; &lsquo;Viagem ao redor do texto&rsquo; foi uma oficina de escrita que durou de agosto a novembro de 2021. A ideia foi mesmo convidar o grupo a fazer uma viagem: de fora para dentro, e de dentro para fora. Da observa&ccedil;&atilde;o &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o, e vice-versa. Para isso, a cada encontro, foi [&hellip;]","og_url":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/","og_site_name":"Escrevedeira","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/aescrevedeira\/","article_published_time":"2021-12-09T20:14:50+00:00","article_modified_time":"2024-10-03T18:41:36+00:00","og_image":[{"width":600,"height":450,"url":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/95479_503026-4a38e-600x450-1.webp","type":"image\/webp"}],"author":"V\u00e1rios Autores","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"V\u00e1rios Autores","Est. tempo de leitura":"88 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/"},"author":{"name":"V\u00e1rios Autores","@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#\/schema\/person\/3866308d2c86aa43b404fada91cae6fb"},"headline":"VIAGEM AO REDOR DO TEXTO &#8211; UMA ANTOLOGIA","datePublished":"2021-12-09T20:14:50+00:00","dateModified":"2024-10-03T18:41:36+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/"},"wordCount":17547,"commentCount":0,"publisher":{"@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#organization"},"image":{"@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/95479_503026-4a38e-600x450-1.webp","inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/","url":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/","name":"VIAGEM AO REDOR DO TEXTO - UMA ANTOLOGIA - Escrevedeira","isPartOf":{"@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#website"},"primaryImageOfPage":{"@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#primaryimage"},"image":{"@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/95479_503026-4a38e-600x450-1.webp","datePublished":"2021-12-09T20:14:50+00:00","dateModified":"2024-10-03T18:41:36+00:00","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/"]}]},{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#primaryimage","url":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/95479_503026-4a38e-600x450-1.webp","contentUrl":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/95479_503026-4a38e-600x450-1.webp","width":600,"height":450},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/viagem-ao-redor-do-texto-uma-antologia\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"Home","item":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"VIAGEM AO REDOR DO TEXTO &#8211; UMA ANTOLOGIA"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#website","url":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/","name":"Escrevedeira","description":"","publisher":{"@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#organization"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Organization","@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#organization","name":"Escrevedeira","url":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/","logo":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#\/schema\/logo\/image\/","url":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/symbol_escrevedeira.svg","contentUrl":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/symbol_escrevedeira.svg","width":298,"height":98,"caption":"Escrevedeira"},"image":{"@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#\/schema\/logo\/image\/"},"sameAs":["https:\/\/www.facebook.com\/aescrevedeira\/","https:\/\/www.instagram.com\/aescrevedeira\/"]},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/#\/schema\/person\/3866308d2c86aa43b404fada91cae6fb","name":"V\u00e1rios Autores","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/14199ae680fe119842d938fe3c74414fd8b0d6c3ef96150d80e06f7f87290f8d?s=96&d=mm&r=g","url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/14199ae680fe119842d938fe3c74414fd8b0d6c3ef96150d80e06f7f87290f8d?s=96&d=mm&r=g","contentUrl":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/14199ae680fe119842d938fe3c74414fd8b0d6c3ef96150d80e06f7f87290f8d?s=96&d=mm&r=g","caption":"V\u00e1rios Autores"},"url":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/author\/varios-autores\/"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/api\/wp\/v2\/posts\/1037","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/api\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/api\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/api\/wp\/v2\/users\/61"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/api\/wp\/v2\/comments?post=1037"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/api\/wp\/v2\/posts\/1037\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1141,"href":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/api\/wp\/v2\/posts\/1037\/revisions\/1141"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/api\/wp\/v2\/media\/1301"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/api\/wp\/v2\/media?parent=1037"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/api\/wp\/v2\/categories?post=1037"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/escrevedeira.com.br\/api\/wp\/v2\/tags?post=1037"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}